SAPATEIOS: DO TEMPO DAS SAPATEADAS – PARTE 1

Falando nos elementos importantes para nossas danças, destacamos hoje um que é primordial: os nossos sapateios… Não os sapateados da Chula, mas o sapateio nas nossas danças gaúchas, com relação peão-e-prenda… como relação entre peão-e-prenda.

Devemos fazer essa diferenciação, já de início, pois são motivos e elementos distintos os que tratam das sapateadas numa apresentação masculina individual (Chula, Chico-do-porrete e Fandango-sapateado) e os que falam de um contato “amoroso”, numa dança de Primeira Geração Coreográfica.

A própria dança da Chula, citada acima, mudou muito ao longo dos tempos, perdendo a bela conotação que se tinha de uma “figura” única, em seu todo, virando uma junção de elementos e coisas, de “floreios”, repiques e ponta-e-tacos, quase sempre em movimentações sem função alguma, com pouquíssimas diferenciações claras entre um “passo” e outro, onde a função fica restrita apenas em mostrar uma dificuldade de execução, porém pobre de criatividade (muitos passos antigamente nem ponta-e-taco tinham ou precisavam, por exemplo).

Conotação esta que se diferencia totalmente de uma apresentação onde se tem uma dama a frente, num motivo para ela estar ali, para sapatearmos diante dela e numa relação clara com uma coreografia especifica. Geralmente, em grupos de danças atuais, onde as funções são constantemente “terceirizadas”, o destinado a montar os sapateios para as danças (como Balaio, Tirana-do-lenço, Tirana-do-ombro, Chimarrita-balão, etc e etc), é geralmente um chuleador ou ex-chuleador: o suposto “criativo”, onde muitas vezes despeja nessas danças (em frente a uma dama) toda a vontade exata (ou a frustação, inclusive) que tinha e tem diante de uma baliza de Chula, onde se dança sozinho. De início, cremos, já partem assim de um ponto de vista totalmente errôneo, dentro das experiências que somamos importantes e trazemos a tona nessa coluna cultural.

-X-X-X-X-X-

Mas, voltando um pouco no contexto do assunto:

Em livros antigos de João Carlos Paixão Côrtes vemos, seguidamente, capítulos citando: Tipos de sapateios; Pesquisas de sapateios; Cantinelas e sapateadas; etc. “Novas danças do Rio Grande antigo”, “Danças e andanças”, “Danças birivas do tropeirismo gaúcho” e “Baile e gerações coreográficas” são exemplos bibliográficos fáceis de se achar…

Mas também há as publicações antigas de o “Correio do povo”: “Terol sapateado”, “Períco, famoso sapateador gaúcho”, “O Chico no folclóre gaúcho”, “Fandango-sapateado” e “Danças gaúchas antigas e novas pesquisas de sapateio”. Mas, por incrível que pareça para alguns, em “Manual de danças gaúchas” já havia (e há) um capitulo com uma exata classificação de nossos sapateios e suas dinâmicas, por ordem crescente.

A questão toda é do porquê há capítulos tantos sobre sapateios e pesquisas de sapateios se os grupos e os dançarinos (incluindo chuleadores) acham tão fácil de os montar? Precisa de tanto embasamento folclórico assim para esse ato?… se perguntam! As perguntas que podemos fazer são:

Quais os tipos de sapateios que temos?

Quais os pesquisados?

E não é somente bate-pé e ponta-e-taco?

Essas são as indagações que se tinha ao ler esse material e tentar interpretar o que se tentava dizer ali… já que: por nada, claro que não é!

tirana do lenço

Foto: Lidiane Hein

A dança mais antiga de sapateio que temos é o “Fandango sapateado”, herança direta do colono luso, algo caboclo. Dança pesquisada e registrada, inclusive com seus sapateios antigos retratados.

Esses sapateios antigos eram: Martelão, Martelinho, Cerra-e-puxa, Cerra-e-trava, Cerra-e-manca, Parafuso, Redemoinho, Olha-o-bicho, Olha-o-fogo, Cara-volta. Além de bate-pés, claro… interrompidos, continuados, redobrados.

Algumas dessas figuras duraram ao tempo e se vê inclusive no “Anú” (nalgumas Gerações mais adiantes ao do ciclo do tropeirismo). Analisando esses sapateios, os mais antigos e os mais antigos recolhidos, se nota e se entende claramente que não são e nem eram perto do que se executa hoje em dia em nossas danças. A felicidade de resgate dessas figuras deixa essa visão clara.

Partimos então do principio que o que temos hoje é concepção da arte e do refinamento de destreza de cada individuo criativo (possivelmente gerada na época dos grupos de shows). Porém, longe do que tínhamos em nossas danças e do que foi pesquisado. Completamos dizendo que, a “arte” faz parte da nossa vivência, individual, intransferível, mutável e flexível… bem distante das questões do “culto”, imorredor, imutável, simbólico e representativo. Também lembramos que o amadurecimento dos nossos sapateios nem sempre aconteceu de maneira a resgatar o folclore que tivemos (caboclo ou não), inclusive por inserirem na década de 70, trejeitos platinos, tão evidenciados à época na mídia, penetrando à execução das nossas danças… e até concursos de “malambo” por aqui se assumiram e cruzaram, deixando resquícios plenos e não autênticos nossos, como a exemplo do repique: que nada tem e nunca teve algo de gaúcho rio-grandense.

malambo

O sapateio rio-grandense usa bate-pé (vide postura brasileira). O repique já é platino, “malambero”. Somado a isso, lá pelos idos de 1997 (nos cursos de J.C. Paixão Côrtes, Rio Grande do Sul, Brasil e Paraguai afora), surgiu um primeiro resquício de oportunidade de olharmos os sapateios de nossas danças, aparte desse mundo de “shows” e “chulas” que sempre tivemos em paralelo, onde se “levantou a lebre” de que havia sapateios mais fáceis e outros mais difíceis, com características distintas e esquecidas, com dinâmicas e personalidades próprias entre si, e com motivos claros para suas realizações em nossas danças. Algo próximo como está descrito no “Manual de danças gaúchas”, na classificação citada acima.

No youtube há, inclusive, um vídeo do CTG vencedor do Rodeio Internacional da Vacaria de 1998, há 19 anos atrás (CTG Os Praianos, de São José/SC), avaliado pela equipe de João Carlos Paixão Côrtes neste ano, onde no “Balaio” vencedor (por exemplo) o grupo termina a dança com sapateios mais fáceis do que quando se iniciou a mesma.

Uma execução totalmente diferente do comum, com algum motivo específico, vindo das palavras e explicações de Paixão Côrtes em seus cursos (onde só um grupo levou isso em consideração na época)… e foi assim o pontapé inicial.

Posterior ao evento (bem depois), tirando nos cursos as dúvidas que essa execução gerou, se entendeu que a ideia daquela execução estava correta, porém a “cronologia” na execução não. Entendeu-se (propagando de vez essa informação por parte do pesquisador) que os sapateios mais fáceis seriam no inicio do “Balaio”, por exemplo, e não no fim.

De novo, repetindo, como na classificação do próprio “Manual de Danças Gaúchas”, de 1951. A explicação? …um era no motivo de interpretação, onde os sapateios e os sarandeios eram a fala do dançarino numa dança ou a característica da primeira geração, e a dança deve refletir essa dinâmica (exatamente como se realiza na “Tirana-do-lenço” na parte de interpretação, do lenço, do corpo e da face).

manual de dança gaúcha

Sapateios e sarandeios são partes da interpretação… E a interpretação é corporal em sua plenitude, não só facial… Não é só na Tirana-do-lenço que ela se realizava: era em todas as danças. E sendo o sapateio parte da espontaneidade da interpretação (e não da rigidez da coreografia), alí que isso se evidenciava.

Junto a isso, ainda estava a linguagem mundial da dança (de qualquer dança, de todas as modalidades e línguas), onde uma dinâmica e apoteose sempre é destacada com inicio, meio e fim… em todas as evoluções de baile, mundialmente falando. E nas nossas (a titulo de apresentação), não se deve falhar com essa relevância qualificada.

Destacamos para comparação o próprio “Fandango sapateado”, com a vibração da figura do “Redobrado” no fim do mesmo (Redobrado este ainda visto também nos Fandangos Parananeses em épocas de visitas de Folias de Reis em casas pobres de madeira)… ou ainda o “Pau-de-fitas”, com o volume da “Rede-de-pescador” finalizando a dança… e assim por diante.

Toda dança possui dinâmica. Já notaram a crescente dos sapateados do “Tatu-de-Castanhola”, de criação coreográfica de L.C. Barbosa Lessa e J.C. Paixão Côrtes, na década de 1950, nas dependências do 35 CTG? Já notaram na crescente das figurações da Chimarrita? Da Faca Maruja? Jardineira? Etc e etc?

Explicações estas, tão obvias, que acrescentaram em muito o amadurecimento dos nossos entendimentos sobre as danças e nossos sapateios ao longo destes últimos anos!

O progresso das danças sempre é para o mais simples e mais didático, não ao espetáculo: é o Culto (coletivo) se sobressaindo ao Espetáculo (pessoal)!

Ah… e além de que, aprender não rouba espaço! Estranho seria uma “Tirana-do-lenço”… realmente, com uma interpretação comedida no inicio da dança, porém com um sapateio ou um bate-pé cheio de movimentações, bate-esporas, pulos, floreios, pontas, etc. Cheio de “vontade” e “volume” para uma intenção de “conhecimento” e “cerimonia” de aproximação.

Exatamente proporcional é a analogia quanto a um final da mesma dança: cheio de atitudes e liberdades, porém com bate-pés simples, ou sapateios comedidos, trancados e sem dinâmicas… tudo incoerente à intenção que cada momento da dança quer e precisa passar.

danca gaucha

Esses momentos existem em todas as danças…

…não só numa “Tirana-do-lenço”. Claro! Antes todas as nossas danças de sapateios eram executadas “retas”. Vide o “Balaio”, de novo como exemplo: se iniciavam “quebrando tudo” e se terminava igual, na mesmíssima intensidade.

Todos os sapateios eram movimentados. Todas execuções “floreados”, não permitindo nem ao público nem diferenciar uma execução sapateada da outra, onde, no fim das contas, se percebe todos sapateios como “iguais”, na mesma linguagem criativa: sem dinâmica, interpretação, diferenciação, didática, culto, intenção e relação alguma com o par (por mais movimentados e floreados que estivessem).

Visão essa vinda lá dos grupos de shows ainda, onde se executavam a dança duas vezes só… e rapidamente… “a pau”. De lá para cá essa visão foi amadurecendo muito nos grupos e nos instrutores mais atentos, junto com as novas gerações de dançarinos, cuidando para que a criação de sapateios fosse desprendida da visão antiga de uma “chula” (de “pressão” e de “quanto mais melhor”).

-X-X-X-X-X- Continua!

#SapateiodaChula #Sapateio #DANÇA

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui