AVALIAR DE CHAPÉU OU SEM CHAPÉU? UM “ENSAIO” SOBRE CULTO OU VIVÊNCIA.

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Paixão Côrtes e Nico Fagundes

Nós, que temos nossa vivência totalmente de caráter citadino, atrelada fielmente à uma rotina urbana, trabalhando com arquitetura, com engenharia, marketing, direito, educação, etc. e etc., e nos identificamos com essa militância encantadora e viciante, em prol de uma cultura ou de manifestações regionais tão nossas (que chama-se Tradicionalismo), quando temos a oportunidade de mostrar da nossa terra, falar dela, representar ela, vestindo nossos trajes típicos, o fazemos com todo o carinho, pois aparenta, neste ato, que, junto dele, levamos realmente o nosso Rio Grande e nossas ancestralidades enraizadas conosco…

Seja numa faixa de flanela bem atada, numa bota bem lustrada, numa bombacha (com ou sem mondongos), num cinturão com guaiaca, ou ainda num colete bem sentado ou num lenço atado, por mais simples que seja. Quem sabe, ainda num humilde detalhe, que pode a todos passar algo despercebido, como de um relógio de bolso, com a correia saindo da algibeira pro bolso do colete, no último botão aberto de mesmo colete sentado, ou numa fivela 8 rosas, algo antiga, usada na cinta encomendada a um guasqueiro amigo, etc.

Carregamos nosso pago, na imagem que queremos realmente mostrar a todos…

É esta uma identificação muda, como que usada para “identificar tribos”. Mesma linguagem que qualquer tipologia social tende a aplicar para se unir a seus pares, seus parecidos, seus próximos de mesmos assuntos, de mesmos gostos, mesmos conhecimentos… Enfim, os de mesmo “tipo”.

Quando essas linguagens distintas se unem, em um mesmo ambiente, permitindo a mescla, o hibridismo e a convivência de modelos sociais, também diferentes, de gostos diferentes, de conhecimentos diferentes, de alcances diferentes, essa união vira e se explica pelo respeito, podendo ser intitulada, talvez, de tolerância, integração, etc. e etc., entre tantas outras palavras, hoje também em voga, para identificar a inclusão social, das características diferentes. A palavra aqui seria, respeito cultural, cremos (mas não é esse o caso… O paragrafo aqui, só serve para uma introdução, à identificação de distintas “tribos”).

E é nesse entrajar de Rio Grande, que tendemos a levar junto às nossas vestimentas, que existem algumas peças que se enquadrariam muito mais no sentido de “necessidade de trabalho” do que numa tentativa de “representar nosso pago”. Como é o caso da nossa espora, que só tem representatividade se há um “pingo” a sua espera ou, ainda, se há danças de Primeira Geração Coreográfica (já que ela também serviu de elemento percussivo, nos pés dos dançantes desse Ciclo, roseteando Fandangos por aí).

Papa e Paixão Côrtes

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Já, por fim, outros elementos de “serviço”, ganharam ao longo do tempo, também conotação de “representatividade cultural”, como o caso dos nossos chapéus e facas (não por nada que nossas facas, hoje, as mais requisitadas, são realmente obras de arte, talhadas em alpaca, prata e ouro, ou ainda enriquecidas com tranças e tentos finos, por nossos guasqueiros, os artistas do couro).

Esses elementos, junto da espora, são inclusive usuais em “corpos de bailes” representativos do nosso Rio Grande, quando apresentam suas danças, seus temas musicais e suas culturas; a espora num auxilio percussivo, às danças de Primeira e Segunda Geração Coreográfica, e a faca e o chapéu como elemento, simplesmente, de CULTO, de “identificação de tribo”, de levar pago por diante, etc. Ou, qual outra necessidade, na dança, que se teria?

Bueno… Não sou avaliador. Não me agrada “transformar em números” a qualidade de companheiros. Inclusive, a quantidade de pessoas que nos fazem de inimigos, simplesmente porque somos contratados para dar nossos “pareceres”, em cima de nossas “trajetórias”, é imensa (o que não é realmente problema de quem ajuda determinado evento).

Se, por vezes, tendo a fazer, é pra ajudar amigos, organizadores de eventos, pessoas estas que gostam de nossas visões, apresentadas de acordo com nossas experiências e estradas, basicamente. Mas não, não sou avaliador. Não penso ser. Muito menos buscar isso como “profissão”, assumida ou velada. Sou um mero instrutor, com opinião, com busca pelo aprendizado, que gosto do que faço, e por fazer há tanto tempo, creio que sei comentar sobre o que faço. Mas, em paralelo, quando estou em um evento, levo junto comigo toda a carga de Rio Grande que adquiri e quero mostrar, demostrar, ensinar, intensificar, fomentar e ver no próprio Rio Grande propagada. Não há intenção de “ser algo” e “cobrar outra”.

O que aprendemos é dever, de se levar adiante, sob pena de contestações futuras e verdadeiras e, nem sempre, agradáveis. Temos de ser responsáveis!

Me visto bem “pilchado”, bem a preceito… Bota lustrada (cano alto ou não), bombacha larga (uso normalmente sem favo), uma faixa também larga, bem presa à altura dos rins, guaiaca em couro de “carpincho”, um colete bem sentado, se frio carrego um casaco, se calor nem colete uso, lenço de nó à maça do peito (como aprendi, independente se cedo ou tarde), um chapéu de “pelo”, com barbicacho de crina (quase que uma jóia) e uma faca prateada, geralmente uma “Guazubira” (bem requisitada e conceituada), com o cabo de prata, usada apontando pro lado direito do corpo (uma outra jóia). Em resumo: assumo o papel de “militante” de um “tradicionalismo”, de um culto, de um povo, de um lugar, de um pensamento e ideologia a serem fomentadas, me torno a própria imagem dessa ideologia…

Fernando Henrique Cardoso e Paixão Côrtes
Fernando Henrique Cardoso e Paixão Côrtes

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…Exatamente, exatamente igual, idêntico, proporcional e de mesmo sentimento, que qualquer grupo de danças na sala, bailando seus temas escolhidos ou sorteados. A intenção é exatamente a mesma… a mesma… a mesma! CULTUAR! Ser militante! Ser de um lugar! Ser a imagem do que somos, para nos fazermos fomentadores didáticos!

Não foi nem uma, nem duas, nem três… Umas cinco vezes, que me lembre, que, enquanto avaliador de algum evento, organizadores ou responsáveis pediram (como toda educação, claro) para retirar meu chapéu e/ou minha faca, sob os argumentos de que “avaliar é um ato social, não de serviço”, “estamos em um local coberto” (sobre o chapéu), “ninguém tá aqui pra pelear” (sobre a faca), ou ainda que “podem complicar, reclamando para o MTG”.

Sou bem respeitador… e sempre atendi aos pedidos. Nunca concordei! Mas atendi! Nunca concordei, porque, no campo das idéias, os argumentos podem ser desconstruídos e reconstruídos, tudo de acordo com aprendizados contrários, de contraponto e filosoficamente também concretos. Uma certa vez, inclusive, indo para a mês avaliadora, um amigo, também organizador de eventos, me cumprimentou e “saltou”, de brincadeira: “Ser avaliado por um homem de chapéu, é outro nível. Há tempos que não via! Aí sim!” Dez minutos depois, adivinhem: tive de tirar o chapéu e a faca!

Mas me alonguei de proposito no tema, mesmo não sendo essa a questão principal deste texto. A questão é bem outra, que desencadeia, também, nessas cobranças atuais que temos em cima dos nossos “tradicionalistas”.

Para mim, a questão é outro, e de um problema muito crônico, hoje institucionalizado (ou não) no seio de todo o “tradicionalismo” atual, onde, com o passar do tempo, de tanto somente organizar eventos e não discutir mais as filosofias (ou manter as filosofias iniciais do mesmo) tende a se perder, e perder cada vez mais. É a filosofia atrofiada, replicada como verdade, pendendo a se tornar verdade absoluta, sem nenhuma oportunidade de podermos “sentar a poeira” novamente.

Quem leu o livro “Pilares da Tradição”, deve se recordar da frase marcante (e, para mim, histórica), dita por Paixão Côrtes, onde relata que:

“Vivemos um momento crucial. Criamos um Movimento de Culto. O Culto é representado por elementos que são anteriores e que dizem da Simbologia das coisas. Há Vivência, mas fundamentado em Simbologia. Simbologia que é perene, que sobrevive a tudo. Agora, o Movimento Tradicionalista não está cultuando, está vivenciando o momento. Criaram, dentro do Movimento, uma série de óticas que, em cima de óticas que, sem fundamentação maior, estão tendo validade. Perderam a razão do Culto, que é eterno, para viver seu momento circunstancial, criando imagens que nem sempre condizem com a Tradição.”

Para mim esse o problema! E a solução de tudo!

Vários setores hoje, do tradicionalismo, perderam a capacidade de distinguir o que é VIVÊNCIA e o que é CULTO. O que é NOSSA VIDA e o que é NOSSO SÍMBOLO.

O Tradicionalismo atual (repito: institucionalizado ou não) vive um momento onde “tudo é gaúcho”, “tudo é nosso”, “quanto mais informação melhor”, “de onde vem não interessa”, “o que importa é que aconteceu em algum lugar do RS… e etc., e etc. Não por acaso que hoje vemos em concursos, de nível Estadual, seguidamente itens, passagens, peças, cantos, instrumentos, culturas que são de fora, sob argumentação de que “em algum lugar aconteceu”…

Telmo de Lima Freitas
Telmo de Lima Freitas

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Isso sem nem ao menos saberem distinguir o que é o TIPO GAÚCHO do GAÚCHO GENTÍLICO mais. Sem nem saber o que mais, disso tudo, é SIMBOLO ou VIVÊNCIA. Podemos dar vários exemplos. O caso dos elementos “alienígenas” são “outros quinhentos”, e creio que mereça atenção em separado. Mas podemos citar, constantemente, as visões referentes aos dançarinos Mirins, por exemplo: envergando “bonecos”, “ursos”, “brinquedos” em palco, etc. Ora, esses são elementos que fazem parte de uma VIVÊNCIA, referente a um GAÚCHO GENTÍLICO… e não faz parte de um CULTO, que influenciou um TIPO social chamado de GAÚCHO.

Os exemplos são vários, de novo repito. Posso citar vários e vários, para me fazer entender sobre a linha de raciocínio. Mas basicamente, em todas as vertentes atuais do Tradicionalismo perdemos a capacidade de CULTUAR, e estamos somente VIVENDO o Tradicionalismo.

Se eu VIVO, não deixo referências… não sou didático… não ensino… não MARCO! Isso é a VIVÊNCIA!

Se eu valorizo SÍMBOLOS, eu fomento… eu ensino… eu instigo… eu cultuo… eu não mato… eu MANTENHO! Isso é o CULTO!

Todos sabem que, antes de 1947, o Tradicionalismo moderno inicia-se lá em 1898, com o Grêmio Gaúcho Porto-alegrense, seguido pela União Gaúcha e o Grêmio Gaúcho de Bagé, em 1899, com a União Gaúcha Lorenciana de 1900, a União Gaúcha de Rio Grande e o Grêmio Gaúcho de Santa Maria de 1901, o União Campestre e o Club Gaúcho Arealense, os dos de Pelotas, junto ao Grêmio Gaúcho de Encruzilhada, todos de 1902 e o Grêmio Gaúcho de Livramento e o Grêmio Gaúcho de Dom Pedrito, já esses de 1904 (vide “Origem da Semana Farroupilha e Primórdios do Movimento Tradicionalista” – 1994 – J.C. Paixão Côrtes).

Porém, raciocinamos: como que um Movimento, tão antigo – iniciado em 1898, tão próximo a tantas manifestações nossas ainda vivas e com 11 entidades distribuídas por todo o nosso Estado – não deixa nem rastros, nem marcas e muito menos ensinos, a ponto de ter de ser reinventado no ano de 1947, quando jovens, de origem rural, fora de suas cidades de nascimento, escoltam os restos mortais de David Canabarro?

O que iniciou-se em 1947 era totalmente distinto do que iniciou-se em 1898…

Em 1898 valorizava-se e pregava-se o convívio e, portanto, a VIVÊNCIA. Era um movimento (aqui, a palavra movimento não tem alcunha de instituição) de repetição, em cubes sociais para pregar o convívio, onde, entre ele, nossas coisas da terra estavam inseridas, vivas e à mão, sem preocupação maior de manutenção (já que não havia “ameaça” de perda).

O que já aconteceu em 1947 era a manutenção da nossa cultura, a identificação de uma corrente de perda de costumes, valores e elementos nossos. Em 1947 os elementos passaram por um processo (programado) de fixação, de concretização, de junção, e, assim, ser DIDÁTICO possibilitando o ENSINO e o passar adiante. Era um momento de CULTO. De fixar SIMBOLOS e, neles, vermos a nossa terra.

1898 se vivia a tradição! 1947 se cultuava a tradição!

Essa é a explicação concreta do porque Cezimbra Jacques nunca descreveu, reconstituiu e publicou a dança da Tirana-do-Lenço… e Paixão Côrtes e Barbosa Lessa sim. Cezimbra Jacques a vivia… Paixão e Lessa a cultuava. Cezimbra Jacques a praticava… Paixão e Lessa a cultuava. Com Jacques era VIVÊNCIA… com Paixão e Lessa era CULTO.

Vemos hoje um Tradicionalismo usando bombacha curta, porque é da vivência atual (de um campo onde, o mesmo peão que cura uma bicheira num fundo de Invernada grande de manhã, tratoreia o campo debaixo das “casa” para plantar)... mas que, apesar de ser da vida comum, da vivência atual, perdeu a capacidade de Cultuar, de ver ela como símbolo, de identidade local, de lugar, de povo, de folk, de ponto referencial no mundo.

Vemos um Tradicionalismo onde o peão que dança num palco de Enart ou de Fegadan usa a faca com o cabo para o lado esquerdo do corpo, por se identificar como canhoto (o canhoto era mal visto no nosso ambiente rural primitivo)… sem a preocupação de que ser canhoto é uma referência atual de uma vivência unitária individual e não de um culto a um símbolo de coletividade (caso usasse como nosso homem sulino sempre e, na sua totalidade, usou). Vemos um Tradicionalismo onde os avaliadores tem de viver o ato de avaliar (usando casaco, sem chapéu, sem faca), ao invés de cultuar os símbolos do nosso povo (da mesma maneira como se permite a um “grupo de danças” em palco cultuar: usando o simbolismo do chapéu, da faca e do entrajar, para identificar de onde vieram).

(O que se faria acaso um avaliador aparecesse num evento de Chiripá à moda da fronteira, por exemplo, então?)

VIVER é a nossa casa, nosso trabalho, nosso divertimento, nosso dia-a-dia, o que não precisamos ensinar ou manter.

CULTUAR é simbolismo, identificar e valorizar símbolos, marcos que são imorredouros, imutáveis, perpétuos e didáticos de um lugar, de um povo e de uma identidade a se manter. Folclore é o estudo da Vivência… E a Tradição é a manutenção do Culto.

Como disse já, os exemplos são tantos, vários e distintos, para dizer do quanto nosso meio hoje VIVE o Tradicionalismo ao invés de CULTUAR a Tradição. E, sem CULTO, não ensinamos… Se não ensinamos, morremos… Se morremos, temos poucos conhecedores… Se temos poucos conhecedores, temos de terceirizar conhecimento… Se terceirizamos conhecimento, nosso meio se torna caro e profissionalizado… Se ele se torna profissionalizado, não é mais CULTO: é VIVÊNCIA… E assim vamos num ciclo sem volta e de rumo ao fundo do poço.

Por fim, que novos tempos nos permitam mantermos rijo esse meio – tão encantador e viciante – cultuando nossos elementos, para serem realmente ensinamentos aos de amanhã… Para sermos menos 1898 e sim sermos mais 1947.

Salve quem queremos ser e o que queremos ensinar… Sempre de bota e espora, bombacha larga e lenço à maça do peito, e de faca e chapéu (este, bem tapeado e já tão surrado, de tanta estrada em pról de uma divulgação de quem realmente somos). Salve!

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