O CAMPEÃO DO ENART, É DE FATO O CAMPEÃO DE DANÇAS TRADICIONAIS?

Muito se fala no ENART que o acerto do contexto de coreografias, especialmente a de entrada, é mais importante que o acerto nos trajes do grupo campeão, e mesmo que a excelência na apresentação das danças tradicionais.

ENART
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Confesso que há muito penso a respeito; mais especificamente desde que ingressei no mundo tradicionalista, e passei a saber da existência do grande FEGART, hoje ENART.

Confesso também que durante muito tempo da minha vida artística fiz “vista grossa” para a beleza e a importância das coreografias (de entrada e saída) no contexto dos concursos artísticos das danças tradicionais; exatamente por isso, depois de ter iniciado minha jornada nesse mundo, adorando, frequentando e participando do FEGART, enveredei para o “mundo” do “estilo Vacaria”, “estilo Paixão”, “estilo campeiro” e hoje em dia também chamado de “estilo FEGADAN”.

Mais recentemente, após voltar a dançar chula, me permiti uma (re)aproximação do mundo do ENART, e então entendi a importância das coreografias para os amantes do Festival, e confesso, acho que elas em sua maioria são lindas, e possuem sim um valor artístico relevante para o mundo das danças tradicionais.

Mas independentemente de rótulos, somos todos tradicionalistas, amantes das manifestações artística do nosso chão, e bem por isso seres pensantes da nossa arte, pois estamos vivendo nosso tempo, nos movimentando com o Movimento, sempre preocupado com o que vamos deixar para as futuras gerações.

Costumo dizer que quando escrevo sobre algo não busco que concordem com meus pensamentos, busco apenas que reflitam sobre assuntos e assim possam também formar suas opiniões a respeito. Exatamente por isso, escrevo essas “linhas” sem receios de agradar ou de desagradar quem quer que seja.

Importante que se diga que não se quer aqui tecer um apanhado histórico das coreografias de entrada e saída junto às danças tradicionais. O que se quer, na verdade, é entender a sua importância no processo de escolha dos campeões do ENART na modalidade Danças Tradicionais, do ponto de vista do regulamento vigente, sem obviamente encerrar o tema, eis que muito complexo.

Com efeito, muito se fala no ENART, por seus frequentadores, coreógrafos, instrutores, dançarinos e admiradores, do chamado efeito gerado a partir do acerto da “proposta de apresentação” para que se possa ser campeão do Festival; muito se diz que o acerto do contexto de coreografias, especialmente a de entrada, é mais importante que o acerto nos trajes do grupo campeão, e mesmo que a excelência na apresentação das danças tradicionais.

Os que defendem esse processo como natural, argumentam que isso ocorre porque os grupos “de ponta” são muito parelhos em todos os quesitos avaliativos das danças tradicionais.

Não obstante, é praticamente unanime entre os atores do Festival, que se o grupo “lacrar” na escolha e montagem das coreografias, que pode dançar o que quiser e como quiser as danças tradicionais que ainda assim será campeão.

Claro que há um certo exagero na assertiva acima, pois é certo que se as danças forem apresentadas muito abaixo da crítica, que coreografia alguma, seja de entrada e/ou saída, por melhor e mais “lacradora” que seja, salvará o grupo do fracasso.

Contudo, temos vários exemplos nesse sentido, de grupos campeões do ENART ao longo dos anos que cometeram erros grosseiros nas danças tradicionais; para verificação do afirmado, basta procurar no youtube e em outros sites de vídeos como a TV Tradição, TV Eco da Tradição, etc.

O que há de comum entre tais grupos, além de terem apresentado as danças tradicionais abaixo do que se espera de um grupo campeão: acertaram em cheio nas coreografias de entrada e saída, uma ou outra, ou nas duas, e com isso empolgaram o público presente.

No contexto, poderíamos apostar, que muitos deles não seriam campeões se não houvessem as coreografias no inicio e no final das apresentações; se o concurso fosse pura e simplesmente de danças tradicionais; ou se não houvesse contato dos avaliadores das danças tradicionais com as coreografias de entrada e saída, de modo a não se contagiarem com a euforia vinda das arquibancadas pela aceitação com as coreografias.

Repisa-se que a pretensão deste artigo não é a de acabar com as coreografias de entrada e saída; ao contrário, sabemos da sua importância para o ENART, e para o movimento das danças tradicionais no Rio Grande do Sul. Tanto é assim que se tem instituído há muitos anos a premiação própria para as melhores coreografias de entrada e saída, e assim deve continuar.

O que se quer em verdade é que os grupos sagrados e consagrados campeões do ENART sejam de fato os grupos que melhor apresentarem as danças tradicionais, pois é isso que dita o Regulamento do Festival, e se não for assim que assumamos que o que de fato importa é o acerto das coreografias, e não as danças tradicionais.

Sendo essa a assertiva escolhida pelo Movimento, o que sinceramente não se acredita, que pelo menos se modifique por Convenção o Regulamento do ENART, e se estabeleça transparência no processo de escolha dos vencedores da modalidade Danças Tradicionais no ENART.

Basta uma olha no artigo 26 do Regulamento do ENART, para ver que os quesitos avaliados para a modalidade danças tradicionais são: correção coreográfica, harmonia e conjunto, interpretação artística e acompanhamento musical dos grupos de dança. No mesmo artigo resta bem claro que as coreografias de entrada e saída “serão avaliadas separadamente, na classificatória da etapa final, por comissão específica”.

Sequer como critério de desempate as coreografias de entrada e saída são consideradas para balizar e ditar o campeão das “danças tradicionais”, conforme disciplina a alínea “a”, do §2 do artigo 19 do Regulamento do ENART.

Desse modo, entende-se que ao fim de preservar os propósitos a que o ENART foi criado, como sucessor dos extintos FEGART e antes ainda do FEMOBRAL, deve-se privilegiar e exaltar as danças tradicionais em PRIMEIRO lugar; e as coreografias de entrada e saída, não menos importante, mas como algo paralelo, acessório ao principal que deve ser sempre as danças tradicionais.

Não é possível, ou não é mais possível que as coreografias de entrada e de saída, e o chamado contexto em que elas se inserirem, acabem por se sobrepor em importância às danças tradicionais. Dai se infere, lamentavelmente, que o que tem ditado os resultados e os grupos vencedores do ENART é o acerto do tema/proposta das coreografias de entrada e de saída, e não a pura e simples excelência das danças tradicionais apresentadas.

Exatamente por isso, nota-se que os grupos apresentam pouca ou quase nenhuma importância para com as danças tradicionais; alguns se pudessem nem as dançavam, e a imensa maioria fazem sempre ou quase sempre o número mínimo de repetições exigidas pelo Regulamento.

Como dito anteriormente, nos últimos tempos viu-se com lamento campeões cometendo erros básicos e primários, tanto nos quesitos harmonia, como correção e interpretação. E o pior de tudo, isso tudo fica relegado a uma segundo plano pelo simples fato de que os ditos campeões “acertaram” nas propostas coreográficas de entrada e de saída. Ninguém, ou quase ninguém, ousa suscitar esse debate porque tais campeões “lacraram” nas coreografias de entrada e saída, acertaram na proposta temática, e se constituíram, por assim dizer nos campeões do gosto popular.

Repisa-se, tudo isso seria natural se pelo regulamento do ENART o campeão das Danças Tradicionais fosse escolhido pelo grupo que apresentasse o melhor contexto de coreografias e de danças tradicionais. Mas NÃO é isso que diz o regulamento, de modo que a situação atualmente vivenciada precisa ser adequada, sob pena de termos campeões do ENART, ou de continuar a termos campeões, bons de coreografias (de entrada e de saída) e ruins nas danças tradicionais.

Ratifica-se que não se quer aqui excluir as coreografias de entrada e de saída do concurso de danças tradicionais do ENART; apoia-se as criações coreográficas, e bem assim os concursos específicos de “melhor coreografia de entrada” e “melhor coreografia de saída”, as quais ocorrem na fase classificatória da final do ENART. O que não se quer mais, e ai está a base do pensamento que ora se publiciza, é que o acerto ou o erro na escolha das coreografias, ditem o grupo vencedor do ENART, na medida em que para tal contam apenas (ou deveria contar!) a excelência das danças tradicionais apresentadas.

O grande campeão do ENART deve ser o grupo que melhor desempenha as danças tradicionais, e para tanto deve dança-las lindamente, deve-se exaltá-las.

Assim para que esse estado de coisas hoje inegavelmente vivenciados no ENART se modifique, exaltando o Regulamento do Festival, propõe-se as seguintes sugestões, podendo ser acolhida uma ou outra:

1) Que os avaliadores das danças tradicionais (interpretação, correção coreográfica e harmonia) NÃO assistam as coreografias de entrada e saída dos grupos, estando no momento em que elas são executada em local apropriado, sem acesso visual e sonoro ao que está sendo apresentado; ou

2) Que no Domingo do ENART, os grupos optem por apresentar apenas uma das coreografias apresentadas na sexta ou sábado, e acrescentem a sua apresentação no domingo mais uma dança tradicional, restando assim: uma coreografia (de entrada ou de saída) e 4 (quatro) danças tradicionais, oportunidade em que o vencedor será de fato o melhor grupo de danças tradicionais.

Acreditamos que assim se estará exaltando os fins e os propósitos a que o Festival foi criado, e bem assim atendendo em sua plenitude o Regulamento do ENART, que prevê que o campeão da modalidade “danças tradicionais” será exatamente o grupo que melhor apresentar as danças tradicionais, e não estas somadas às coreografias de entrada e de saída.

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