INFLUÊNCIA: EXPECTATIVA E DOCE REALIDADE!

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A vontade e talvez a ambição de escrever um livro me acompanham há algum tempo. Um pouco mais de uma década para ser mais preciso. Mas nem tudo são pontos, vírgulas ou palavras, por mais “encontradas” que possam ser. Sempre imaginei esse livro de uma forma muito visual. E sempre vi, na sequência das páginas que são o próprio tempo, um desfile de índios e changadores, gaúchos e tropeiros. Todos vivos, garbosos, a expressar sua fibra e sua verdade – um recado aos que virão, de que sim, se orgulhem desse passado, da sua história.

E nem tudo, nessa longa empreitada, são fontes, bibliotecas ou museus. Eu comentava que o livro seria muito visual. Portanto, criar imagens passa também a ser uma preocupação. E isso nos leva a escolha de um fotógrafo.

Eduardo e seu olhar, que agrega mais que que técnica ou experiência. Agrega sentimento, busca e entrega. Check. Mas e as pessoas? E os lugares? O quê fotografar? É lógico que precisamos ter pelo menos um mínimo de planejamento. Fazer uma lista, planilhas… vocês sabem como é! Mas de novo vem a pergunta: Quem fotografar? E onde e mais importante, porquê.

Vivi grande parte de minha vida em Bagé. Depois de formado em Medicina Veterinária, cambiei de pago e junto com minha esposa, Míriam, deixamos a nossa querida fronteira, para residir em Porto Alegre. Mas os campos, os corredores, as estâncias me acompanharam. E as pessoas também. E nada mais justo que recorrer e registrar esses lugares, essas pessoas, que de alguma forma se conectam com minha própria história.

Quinta-feira, dia 30 de abril, depois de um longo dia de trabalho, chego em casa apurado.

Aqueço uma água para o mate, junto umas poucas roupas e os pertences necessários, apresso um pouco a Míriam e encaramos os quase 400 quilômetros que separam nossas duas cidades, distância essa que sempre parece menor do que é. A logística nunca é fácil. Não temos produtores ou profissionais hábeis em “armar” essas produções. Somos só nós e os amigos que nos apoiam. Eduardo e Samanta na estrada e nós também, para no outro dia, feriado do Dia do Trabalhador, partir para mais uma expedição à pampa profunda, à pampa de antes, à nossa pampa. Nos esperava a legendária São Francisco, ilha, ou melhor, paraíso de tradição. Chegamos nem um minuto mais, nem um minuto menos do horário marcado.

Enquanto nos deslumbrávamos com aquele paraíso campeiro, peões, patrão e capataz se movimentavam na sua rotina de estância, para nos proporcionar um espetáculo digno dos mais nobres teatros. As três tropilhas de serviço de São Francisco, depois de recolhidas na mangueira, formaram de forma magistral, para assegurar que sim, se tem gente campeira por estes lados.

O Eduardo gastou o dedo nesse dia, mas São Francisco ofereceu ainda mais. Francisco, domador como poucos, no palco de uma coxilha, escaramuçou sua redomona moura, a dizer que sim, temos domadores e gaúchos que não estão nos livros ou nas memórias. Eles estão ali. Muito vivos. O sol, com aquelas barras vermelhas, mergulhou no horizonte e nós regressamos, convictos de ter vivido um grande dia.

O dia seguinte nasceu preguiçoso, com cara de inverno, contrariando as previsões.

Buscamos cenas, andamos, fomos e voltamos, mas a manhã não nos deu o que esperávamos. Paciência. Numa próxima, vamos voltar à Estância São Jorge. Mas ainda tínhamos a tarde e era tarde de Serrilhada. No longo trajeto até aquele rincão, fui recordando minhas passagens por aquela região tão campeira e que tenho tanto apreço. Fazia alguns anos que não ia lá. Poucos é verdade, mas ainda assim, anos. Nos aguardava por lá Santiago Soares de Lima e meu amigo Edu Macedo, o qual conheci justamente lá e foi um destes “rostos” que nunca esqueci. Todos nós estávamos tensos. A manhã não tinha rendido e todas as expectativas aumentavam essa tensão. Mas estávamos na Serrilhada.

Confesso que eu estava nervoso. Nas nossas viagens anteriores, eu sempre tinha um roteiro, objetivos e alguma certeza. Aqui, a ideia não era ter nada programado, salvo uma guitarreada com o Santiago. O demais era procura, casualidade e sorte, se podemos dizer. Queríamos fotografar um gaúcho no contexto atual. Talvez algum espírito campeiro tenha acompanhado nessa jornada. Depois de alguns minutos de espera, debaixo da legendária timbaúva, o “timbó” como lá se costuma dizer, ouvi um barulho de moto, num campo conhecido e vi um velho amigo. Fizemos nosso primeiro registro e quebramos o gelo.

Seguimos pela estrada, pelo corredor, e logo nos deparamos com um campeiro, Don Ita, paisano e campeiro entre campeiros e eternizamos sua estampa em lindos registros. A moral subiu, e acompanhados do Santiago, encontramos outro gaúcho, com um conjunto de fatores que nos fizeram pensar: cumprimos. Mas o dia reservava mais. Santiago nos presenteou com um recital debaixo da imponente timbaúva. O sol descia, as cordas temblavam e tudo pareceu uma eternidade, naquele dourado que durou poucos minutos. Mas registramos. E vamos ver muitas, muitas vezes aquele grande momento. Assistimos em silêncio e o Edu, grande contador de causos também calou, perante a imponência, ao desfecho de um dia, que não foi um dia qualquer.

Não queríamos voltar. Fizemos planos, quem sabe ficar lá o domingo também? Ou o mais certo, retornar em breve. Fizemos um alto no caminho. O bolicho do Don Ita convidava à uma última milonga e histórias e versos do gigante Edu Macedo. E com o temblar da guitarra parece que ele mesmo voltou no tempo, quando os gaúchos de antes arrastavam esporas e mesclavam idiomas nas idas e vindas dos largos corredores. Mas tínhamos que voltar. O dia estava ganho. Missão cumprida como se costuma dizer. No caminho de volta, pensei comigo mesmo: já não era expectativa, mas uma doce realidade!

P.S.: Em breve, essas imagens serão divulgadas e vão alimentar as esperanças de que tudo isso se perdure e que se passem dez ou vinte anos e que quando eu ou vocês voltarem, o Edu vai estar lá, debaixo da timbaúva, contando seu causo da tropeada de capinchos e Don Ita, depois de voltar do campo, vai estar no bolicho, servindo uma copa pra quem vem com ânsias de chegar.

P.S.: Nessas viagens, sempre se guardam histórias. Em São Francisco, quem sabe, um dia, o Manuel Luís vai contar o causo do seu poncho. Eu disse que não contamos com uma grande estrutura. Saímos de Bagé com poucas coisas e talvez (as vezes), podemos esquecer de coisas complexas como uma garrafa d’agua. As gurias, com sede, me pedem, em frente ao bolicho para comprar uma garrafinha de água (sem gás). Pensei comigo mesmo: quem entra num bolicho para comprar água? Mas não discuti.

– Boa tarde dona.
– Boa tarde.
– A senhora tem água? Perguntei.
– Sim. Ela respondeu, naquele sotaque inconfundível da fronteira. E remendou: E água
boa, de poço!

Henrique Fagundes da Costa, maio de 2020

serrillada

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