NÃO NOS FAZ FELIZ ESCREVER ESSAS PALAVRAS, MAS…

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Fazer CTG é uma arte. É um ato cultural e político, mesmo que tu não tenhas consciência disso. Mesmo que tenhas começado e seguido por incentivos familiares sem nunca teres se questionado sobre isso.

Mas chegou a hora de te contarmos isso então. Quando tu te pilcha, quando tu dança, declama, estuda, te dedica e te apresentas, estás fazendo cultura, em muitas modalidades estás vivenciando arte, seja como artista ou como espectador que vive uma experiência estética. Porém, precisamos entender de uma vez por todas que não somos os únicos no mundo que fazemos isso. Nem ao menos em nosso país.

Não existe ótica preconceituosa e bairrista ao se olhar para a cultura do país como um todo, numa linha antropológica. Podemos exemplificar isso com o Festival Folclórico de Parintins, o festival é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). As apresentações, que começam na última sexta-feira do mês de junho indo até domingo, simbolizam uma disputa a céu aberto entre duas agremiações folclóricas Boi Garantido (vermelho) e Boi Caprichoso (azul), que acontece no Centro Cultural de Parintins, mais conhecido como Bumbódromo, com capacidade para 35 mil espectadores. O Festival Folclórico de Parintins é transmitido ao vivo para todo o Brasil pela TV Cultura. São milhares de turistas do Brasil e do mundo que acompanham as toadas dos bois Garantido e Caprichoso. Na época do festival, a população de Parintins, de 114 mil habitantes, chega a quase dobrar. Segundo a prefeitura do município, cerca de 80 mil turistas visitam a cidade durante o festival. Acredito que para quem conhece o tamanho do Enart já se vê uma bela diferença em proporções, certo?

As pessoas desta região do país vivem da cultura assim como os nossos coreógrafos, instrutores e músicos. Todos estamos no mesmo barco. Não seria então hora de prestarmos atenção que estamos sem um Ministério da Cultura atuando em relação a tudo isso? Afinal, cultura foi vista como algo de não importância o suficiente para ter um Ministério e não vimos nenhuma movimentação de crítica a isso circulando pelo nosso movimento.

Na semana passada tivemos um depoimento da atual secretária de cultura do país fazendo piada com a ditadura, esta mesma que calou artistas deste país por anos e era extremamente contra movimentações bairristas.

Neste período de isolamento social ficamos bem felizes por vermos tamanha movimentação nas redes sociais. Grande profissionais que a maioria nunca tinha tido a oportunidade ver falando estão dando verdadeiras aulas de história, abertos ao debate, ao diálogo, e mostrando um movimento que finalmente conversa com o mundo em que vivemos.

Na antropologia aprendemos que toda cultura está fadada a morrer, é duro, mas é uma verdade. A cultura que não se reinventa, que não se renova, morre. Queremos a perpetuação das nossas artes e não um engessamento que afaste ainda mais as pessoas ao invés de crescermos.

Dado esse contexto, como fica a questão financeira? Temos uma economia cultural que depende disso, todos estes profissionais já citados aqui. Certo? Sim. Como eles são pagos ao longo dos anos? Com os eventos que as nossas entidades fazem durante todo o ano. Sejamos pragmáticos. Voltamos agora, as entidades seguem proibidas de fazer os eventos, os dançarinos seguem afetados financeiramente.

Afinal, estamos todos no mesmo barco e vários perderam seus empregos. Quem vai pagar a contas? Entidades sem eventos, sócios sem dinheiro para o que não faz parte da prioridade de sobrevivência. Como fica a conta final disso? Tornaremos então nossos galpões ainda mais excludentes, só faz quem não foi afetado pela crise financeira da pandemia? Nem de longe isso seria uma solução aceitável. Por mais triste que seja, é isso: o show precisa parar.

A essência do evento é a catarse coletiva, o sentido de união, de trocas e liberdade. Infelizmente, esse momento o que o mundo precisa é justamente o contrário. Menos circulação de pessoas e menos contato é igual a menos contágio, menos hospitais lotados e menos mortes. Vamos as questões básicas para finalizarmos. O que existe de mais básico para uma sociedade existir e prosperar é a educação.  E ela está parada, pois não se vê um cenário de aulas presenciais em escolas ou universidades em que não haja contato físico ou aglomerações.

Como isso seria possível dançando? Vamos aprender a interpretar usando máscaras? Vamos dançar mantendo os 2 metros de distância? Vamos ensaiar a céu aberto? Dança é olho no olho, é contato físico, é arriscar e ousar sem medo, é mostrar segurança. Como vou estar seguro se estou com medo de tocar no meu par? Afinal, essa pessoa tem a rotina dela, seja onde for, com quem for, usando os seus transportes e vivendo com a sua família.

Mas ao final da tempestade, o sol há de brilhar. Os festivais e eventos vão voltar. E prometem vir ainda mais fortes. Porque vai ter muita gente, como eu e talvez você, que vai estar esperando ansiosamente por esse momento.

Há dias não temos motivações para novas postagens no @dancarinosdectgs, pois não estamos bem com a ideia de tantas coisas sendo adiadas. Não nos faz feliz escrever estas palavras, muito pelo contrário. Produzimos conteúdo baseado no que todos nós realizamos e nada está sendo realizado fisicamente, todo o nosso planejamento anual foi por água baixo.

Mas precisamos ser realistas. Precisamos estar amparados pela ciência. Nossos hábitos, nossa cultura, não são bem vistos academicamente. Sofremos preconceito por nos vermos apenas como bairristas, mas não como parte de algo maior que isso, que é sim, cultura e arte.

Porém ao nos colocarmos nessa posição egoísta de falarmos somente em nós. Damos razão a tudo que é dito de nós, nos afasta do diálogo, e termos profissionais que só teriam a somar ao movimento. Seguimos sonhando, com um movimento mais empático, e com mais consciência e intelecto com aparo cientifico, para lidar com esta crise e com as demais que temos por vir.

Esperamos que ao final deste ano todo aqui entusiastas desta arte, nossos seguidores, levantamos juntos o troféu, que essa taça seja nossa. E que ela, o nosso maior prêmio, seja a nossa vida e a de quem a gente ama. Quanto mais perdas menos saúde mental teremos para seguir fazendo algo que emana alegria, cuidemos então de nós e dos outros.

Agradeçam pelo fato de não estarem na posição do Velha Carreta agora, ninguém está pior do que eles, e se puderem ajudem na vaquinha. Fiquem em casa e lavem as mãos. Saudações tradicionalistas.

Rogério Potter para @dancarinosdectgs

1 COMENTÁRIO

  1. Me emocionei com o texto. Livre de política, ele é um apelo pela seriedade e pela valorização da cultura do Sul… não afirmo gaúcha pois sou catarinense, mas estamos sim no mesmo barco. Parabéns.

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