NESSA ÉPOCA: UM RELATO DE QUEM PEGA A ESTRADA

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Em 98 Os Praianos ganharam um bi-campeonato incrível em Vacaria… Neste mesmo ano dancei umas apresentações por esse grande CTG.

Nessa época – pouco mais, pouco menos – eu recém tinha me formado em Edificações, e trabalhava num escritório de Arquitetura de um ex-professor meu, no Centro de Canoas. Era estagiário. Começava a estudar Arquitetura e Urbanismo na Ulbra, numa das pontas da Cidade, e morava – ainda moro – num outro ponto, distante, igualmente, entre o Centro e o campus da Ulbra.

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Chegava quinta-feira em casa, às 23 horas, depois da aula, e, depois da janta e de um banho, arrumava minhas malas, colocando bota, bombacha, lenço, guaiaca, tudo… às vezes algum livro para ler na rodoviária ou no ônibus. Nunca esqueci de separar o chapéu. Deixava tudo armado e separado. Assim, já na sexta-feira pela manhã, perto das 7:45h ou 8:00h eu saída de ônibus (Sogal) para o Centro, de mala “e cuia” – e chapéu – direito o serviço.

Deixava a mala num canto do escritório, meio escondida dos clientes que entravam… E seguia minha rotina, até as 18:30h, onde pegava a mesma mala e, novamente de ônibus, seguia para a aula de sexta-feira na Ulbra, aula quase sempre vazia – ninguém quer “pegar” cadeiras na sexta.

Deixava a mala do lado da minha carteira, com o chapéu em cima, e assistia o professor ou trabalhava em algum projeto que nos era passado. Quando dava, deixava a bagagem no fundo da sala, onde não atrapalhava ninguém. Mas já terminando a mesma, perto das 22:30h, pegava o terceiro ônibus do dia (um Vicasa), este rumo à estação de trêm (Estação São Luiz), para então tomar o trêm rumo à Estação Rodoviária de Porto Alegre, onde saía, meia-noite em ponto, as linhas em direção à Florianópolis. Sempre comprava a passagem antes, na própria rodoviária (num dos horários de meio-dia, de almoço, depois voltando para o trabalho novamente).

Chegava na rodoviária perto das 23:15h normalmente, e esperava até meia-noite (às vezes comendo algo ou, quando tinha, nalguma lan-house da época) pra entrar no ônibus Pluma, Eucatur ou, às vezes, um aleatório da rota da Penha, via litoral de SC em direção a Curitiba. Comia algo, passava a passagem no guichê e seguia, com algumas balas e uma água de munício, dormindo tranquilo até Floripa.

Em SC já, eu precisava normalmente descer na BR – lá pelo Bairro Campinas, em São José, ou (dependendo da data) um pouco antes, alí pelo viaduto da Forquilhinhas, longe de Floripa, da rodoviária – e pra descer alí, tinha de levar a bagagem em cima no ônibus, debaixo das pernas, dormindo meio mal e apertado no banco, por não caber a mala em cima, onde vão as bagagens de mão. Mas esse era o ônibus mais popular, o “comum”, que nem sempre tinha passagem.

Os melhores não paravam na estrada, tendo de seguir direto até a rodoviária. Mas ia tranquilo, cochilando. Chegando na rodoviária de Floripa, por volta das 6 horas da manhã, ligava de um orelhão pro Rui, pra avisar que cheguei. Não tinha celular na época, era só para “rico”. E não valia a pena ele estar lá esperando as 6h da manhã, porque era comum do ônibus atrasar… Então chegava, e daí depois ligava. Ele chegava, uns 20 a 25 minutos depois, e íamos pra casa dele. Já quando descia na BR, eu sabia onde ficava a casa, e ia sempre a pé, bem tranquilo – até pra não incomodá-los de manhã cedo – de mala, chapéu e tudo mais.

Chegando então na Forquilhinhas, pedia pro motorista do ônibus me deixar no viaduto, onde descia e caminhava cerca de 1 quilometro e meio até chegar na casa do Rui. Não era um problema, e as 6h da manhã já estava meio clareando o dia. Perigo até não tinha.

Chegava, tomava um café da manhã, preparado pela Regina, meio no susto, porque acordar 6h da manhã sábado, é complicado. Levava umas “mijadas” quando derramava leite na toalha (mas, com razão, pois, onde se viu errar a boca do copo e derramar fora dele, na toalha). Daí eu deitava, algo por 7:30h ou 8h, em uma cama preparada já, e daí descansava melhor, até umas 10h ou 11:30h, pra compensar o tempo da viagem. Isso quando o pessoal não ia acordando e daí ficávamos conversando sobre dança, chula, rodeios – esse sempre era o assunto.

Acordávamos, almoçávamos, e daí ia um por um pro banho e se arrumar, pois já tinha ensaio marcado às 14h da tarde, lá no CTG Os Praianos, no galpão de madeira, aquele antigo, mas sempre bom e aconchegante, que serviu de casa pra muita preparação de rodeios grandes e concursos históricos pra todos. Chegávamos, nos abraçávamos, conversávamos, e aí ensaiávamos… Ensaiávamos muito, até cerca de 20h ou, quando necessário, até as 22h da noite.

Normalmente era preparação de véspera de algum evento grande, e tinha ensaio com musical sábado à noite – e às vezes domingo também. Não raro, sábado de noite jantávamos no próprio galpão, numa janta – cachorro quente era mais comum – preparado pelos próprios pais e coordenadores – que também eram pais. E então conversávamos mais um pouco, colocando o assunto em dia – eu principalmente, que andava 456 quilômetros, só para ensaiar. Nem todos tinham carro, e o revezamento das caronas era comum.

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Quando não dava nos carros, mandávamos as gurias de carona e íamos a pé mesmo, pra casa… Não custava. Só os peões, cantando, dançando na estrada… E aprontávamos… Como numa feita, onde furou o pneu do carro de um dos guris, e paramos todos pra no meio da estrada mesmo, e, vindo uma família em nossa direção – perto das 21h da noite isso – deitamos no asfalto, fingindo um atropelamento… E a família fugiu, dando cara-volta na estrada, seguindo correndo. Arrumamos o pneu, trocamos a roda, e o carro levou as gurias… E nós, indo pela estrada, a pé, vimos passar duas viaturas, metendo “pata”, encostando do lado da gente, pra perguntar se sabíamos certo onde tinha dado um atropelamento por ali… Sorte que não entenderam, “que os tipos atropelados estavam diante deles”.

Coisas de uma turma amiga, engraçada e “topadora”, de 17, 18, 19 e 20 anos, que ensaiava e convivia todos finais de semana – no meu caso, quando dava – e, quando precisava, fazia shows de danças pelo CTG em cidades vizinhas (Camboriú, Jaraguá do Sul, Florianópolis mesmo, etc.) e, só por patacuada, por vezes se inscrevia num fute-boi, só pra ganhar uma caixa de cerveja de prêmio. Isso mesmo!

Quando dava, pós algum ensaio, combinávamos algo para mais a noite… Ou uma janta na casa de alguém do grupo, uma partida de jogo de botão – que sempre dava “peleia” – ou, quando já se tinha mais condições, uma partida de vídeo game – futebol, sempre. Talvez um sorvete no Kobrasol, um xis, um passeio. Uma ou outra vez – quando não tinha ensaio domingo de manhã – marcávamos uma saída para dançar, pegando carona com quem tinha carro ou dirigia – nem todos tinham carteira – para ir num dos bailes do Rancho-Brasil, nos pagodes do Cantuária, nalgum forró lá na Ilha ou, quando carnaval, nas tardes Maré Alta.

Quando não, se ia pra casa mesmo, descansar, pois domingo o ensaio geralmente era cedo. Levantávamos 8h da manhã, de novo aquele café necessário, de novo pro banho, colocar aquela pilcha preparada (sempre ensaiava-se de traje completo – aliás, em Canoas chamava sempre de pilcha, e estranhei quando em SC chamavam de traje), e, novamente, seguir o mesmo rumo aos Praianos. Faceiros!

De manhã as gurias ensaiavam dentro do galpão – quando preciso – comandados pela Regina Antunes e a Bibiana Antunes (isso mesmo, a Fernanda Antunes só obedecia na época, hehe), e os guris ficavam no palco pequeno da rua, aquele da Chula do rodeio, onde montávamos e ensaiávamos as Danças Biriva, toda a manhã. Fandango, Facões, Porrete e Chula, todos dando boas opiniões e administrado aquela “tempestade de idéias”, sempre puxado pelo Rui Fernando e pelo próprio Rui (quando o Julio Arruda estava, entrava junto na rotina).

Imagina a criatividade que isso não gerava. Meio dia, e “rolava” aquele almoço, novamente no galpão, para já à tarde seguir o ensaio novamente. Descansávamos no galpão de ensaio mesmo, nalgum banco, nalguma cadeira, nalguma mesa, no carro, e um colchão era raro. As 14h tudo recomeçava, pegado. Rui metendo pressão, com repetição em cima de repetição. Terminava geralmente às 18h o ensaio, então, de novo se quarteando nos carros, voltávamos pro “rancho”, tomar um banho, rearmar as malas (que sempre voltavam maiores do que quando chegavam – nunca se sabe porquê, sempre sabendo), e esperar pra ir pra rodoviária, pegar o ônibus de volta (já que a passagem já estava comprada, desde quando chegava em Floripa, se descia lá).

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Com um pouco mais de folga, por vezes íamos comer uma porção de camarão, pela cidade (que sempre era muito bom, dos camarões grandes, mas, sempre, muito caro pra gurizada de 17 anos). Então nos despedíamos, e eu ia de carona (ou com o Rui ou com alguém do grupo) pra Floripa, na rodoviária, ou até na garagem da Pluma, na entrada de Forquilhinhas.

Depois de ver se tinha passagem ainda, dava um adeus à carona, esperava a “baldeação”, entrava… E voltava, ansioso para pegar no sono e chegar inteiro em Porto Alegre. Mas não acaba por aí… Pois chegava em Porto Alegre às 6 horas da manhã, com a mesma mala e chapéu, indo até a estão de trêm (Estação Rodoviária – do lado), pegando o trêm já lotado (do pessoal indo trabalhar) até a Estação Canoas, caminhando até o escritório (mais 1 quilometro a pé), chegando perto das 15 para as 7 horas (atrasado, chegava as 7 horas), entrando e esperando começar o expediente lá por 8:30, quando não, 9 horas da manhã.

Guardava a mala no mesmo lugar, algo escondido dos clientes… Trabalhava o dia todo… Pegava a mesma mala e o chapéu… Ia até o trêm novamente (mais 1 quilometro)… Descia na Estação São Luiz… Pegava o Vicasa para chegar ao Campus da Ulbra, perto das 19 horas (horário que começava a aula)… Guardava novamente a mala e o chapéu, ou do lado da carteira ou no fundo da sala (pra não atrapalhar)…

(Encontro cultural realizado em São José/SC, em Setembro de 1998, organizado por Rui Arruda Antunes, Regina Antunes e a primeira Prenda da 7° RT na época Kelly Scheffer)

Estudava… Pegava a mala, pegava o ônibus pra casa… Descia perto do hospital… Caminhava mais 1 quilometro (mais ou menos) até em casa, às 22:30h da noite, até que, só aí, chegava em casa! 87 horas depois de sair… 87 com a mesma mala de parceira… O mesmo chapéu… A mesma vontade de dançar… De estar com os amigos… De estar aprendendo…

E levando, dessa maneira, as coisas que gosto adiante! Só aí que ia jantar, desfazer a mala, colocar as roupas para lavar, tomar um banho… E dormir… Para terça-feira pela manhã retornar ao trabalho, esperando que, daqui a mais 4 finais de semana, esta rotina se repetiria novamente, com muito gosto e espera! Dessa época, vieram muitos palcos, rodeios, shows (com o CTG Os Praianos ou com o Grupo Nante Arruda), espetáculos e prêmios… Alguns Fecarts (2, na verdade, pra mim: um com o próprio Praianos em 2001 e outro com o Ilha Xucra em 2007)… Mas a base de muita estrada! Que fase boa, e se era corrida ou “sofrida”? Claro que não: pra quem gosta e ainda pra gurizada que gosta disto, é tudo isso uma diversão, um prazer. E quanta coisa não se aprendeu e quantos amigos não fizemos nessa época, que, algum deles, até hoje nos falamos ou nos vimos e, outros, seguiram suas vidas onde, mesmo não compartilhando rotinas juntos, lembram desses momentos como base cultural e social de seus crescimentos e evoluções pessoais e familiares.

Repeti essa rotina, mensalmente, de 2000 ao início 2003, todo mês… Três anos exatos, subindo todo mês para Floripa, só para dançar!

Fora o quanto que aprendi, inclusive a admirar mais a cultura portuguesa (que tenho parte no sangue, mas passava meio em “branco”, junto ao gosto “crioulo” das nossas coisas… A cultura açorita (ou açoreta)… Ternos… Folias… Manifestações… Boi-de-Mamão… Cantigas… Etc. Tudo veio depois disso… E é parte nossa!

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Peço aqui permissão do Rui, para postar estas fotos (feitas de maneira amadora, com a tecnologia da época), como símbolo desta época (mas sei que ele vai me perdoar… e depois também publicará nas suas redes sociais, para outros amigos).

Abração a todos… Salve a dança!

Estamos aí e estamos nela, enquanto pudemos!

*Fotos: Acervo CTG Os Praianos, Rui Arruda Antunes, Regina Antunes e Diego Müller

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