E SE UM PROGRAMA DE RADIO GAÚCHO FOSSE MAIS FAMOSO QUE O “FANTÁSTICO” DA GLOBO?

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Programa de Rádio marcou época no Rio Grande do Sul e no Brasil!

Em agosto de 1947, no município de Porto Alegre, brotou no coração de jovens gaúchos, oriundos da cidade e do meio rural, pertencentes às mais variadas classes sociais, liderados por João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, a necessidade de organizar-se e reunir-se sob a justificativa de preservar, estudar e discutir, a TRADIÇÃO GAÚCHA, isso tudo, com o foco no desenvolvimento e revitalização da cultura “rio-grandense” propriamente dita, de modo a interliga-la e valoriza-la perante a cultura brasileira em um contexto geral.

Como já sabido, em abril de 1948, fundou-se oficialmente o “35” Centro de Tradições Gaúchas, com a reunião de 62 (sessenta e dois) fundadores, em sua totalidade rapazes estudantes na capital e que provinham da campanha, das mais variadas regiões do estado.

Estes jovens gaúchos que se organizaram, para a empreitada da fundação do “35 CTG”, destacava-se pela liderança e pró-atividade, mas acima de tudo, pelo espírito comunicador, a ponto de que já em 1947 em momento anterior à fundação do “35 CTG” Glaucus Saraiva escreveu e dirigiu o programa radiofônico Alma do Pago, atividade também realizada por Barbosa Lessa com 15 (quinze) anos de idade em 1945 no programa Campereando, e posteriormente em 1950 e 1952 no programa Querência.

Sendo que, em período contemporâneo, Paixão Cortes estreou em 1953 na Radio Farroupilha o programa Festa no Galpão, o qual fora, convertido, no programa de rádio de maior sucesso do Rio Grande do Sul em maio 1955, naquela época apresentado por Paixão Cortes e Darcy Fagundes, O GRANDE RODEIO CORINGA.

rodeio coringa

O GRANDE RODEIO CORINGA.

Em 1º de Maio de 1955, a Radio Farroupilha, por inspiração do Sr. Octávio Augusto Vampré, decidiu por criar o “PRIMEIRO PROGRAMA GAÚCHO DE RADIO AUDITÓRIO”, programa este que fora apresentado por 3 duplas:

i) Paixão Cortes e Darcy Fagundes

ii) Darcy Fagundes e Dimas Costa

iii) Darcy Fagundes e Luiz Menezes, esta última que se manteve como principal formação até o final dos anos 1970.

O programa era transmitido aos domingos, das 20h às 21h, reunia: trovadores, declamadores, comediantes, grupos de música regional e tinha como maior objetivo, difundir o sentimento de gauchismo, em todos os rincões que alcançavam os sinais da rádio, que na época era o maior meio de comunicação.

A ideia era tida como simples, como se pode extrair do relato do Próprio Paixão Cortes para Luiz Artur Ferraretto em 2005, que relata:

Eu convidei o Darcy Fagundes, que era um excelente radioator, meu conhecido, meu amigo lá de Uruguaiana, e nós, os dois, formamos uma dupla e se lançou, realmente, o Grande Rodeio Coringa, que reformulou toda a história da fonografia rio-grandense, na comunicação dos temas regionais mais singelos, mais puros, dançando, cantando, se apresentando as invernadas artísticas e abrindo um caminho para os grandes cantores populares, os grandes intérpretes, os grandes músicos, que até então não tinham oportunidade porque ninguém lhes oferecia ao vivo. Sempre era fechado. Então, o rádio foi o grande catalisador deste importante momento para a cultura popular rio-grandense, pois aproximou músicos, instrumentistas, cantores, letristas, poetas e, ao mesmo tempo, ofereceu a grande manifestação coletiva que a dança oportunizou.

O programa seguiu com a participação de Paixão Cortes por apenas dois anos, ou seja, de 1955 a 1957, sendo que, sendo que sua composição mais “famosa” foi com a participação de Darcy Fagundes e Luiz Menezes onde reviveram o Grande Rodeiro Coringa (1977), entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa “Opinião Pública”, da Rádio Difusora Porto-Alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977:

RODEIO, RODEIO DA ILUSÃO, NESTE RODEIO APARTEI UM CORAÇÃO (BIS)

Abertura:

Darcy Fagundes Buenas noites senhores do auditório, Buenas noites ouvintes de casa!

Luiz Menezes Meus amigos ouvintes de casa, muito boa noite, aqui estamos Darcy e eu para o GRANDE RODEIO CORINGA Darcy.

Darcy Fagundes Mais uma Vez meus amigos, aqui estamos na companhia do poeta Luiz Menezes para apresentar as nossas DUPLAS, OS NOSSOS TROVADORES, OS NOSSOS CONJUNTOS, e vamos fazer o sinuelo do rodeio desta noite.

Enceramento:

Darcy Fagundes Compete-me nesta altura agradecer a presença dos senhores neste auditório, a sintonia dos ouvintes, que ficaram nos ranchos, e pedir com muita humildade que meu patrão velho la de riba permita que para meu contentamento domingo que vem eu possa me encontrar com os senhores novamente, Buenas noites.

Luiz Menezes – Da mesma forma boa noite minha terra

RODEIO, RODEIO DA ILUSÃO, NESTE RODEIO APARTEI UM CORAÇÃO (BIS).

O programa em questão em seu formato original era apresentado na Radio Farroupilha, e possuía o patrocínio da indústria Alpargatas, que naquela época lançava ao mercado, para consumo geral da população cujo o nome era “far-west”, esta calça era produzida em tecido azul grosso e recebia o nome de “BRIM CORINGA”, calça esta que posteriormente passou a receber a marca ou denominação “RODEIO”.

Conforme depoimento do Tradicionalista Bagre Fagundes o motivo do nome do programa, se deu pelo seu patrocinador, São Paulo Alpargatas, o qual possuía um produto com nome RODEIO feito de um tecido chamado BRIM CORINGA, sendo assim o nome O GRANDE RODEIO CORINGA era motivado pelo patrocinador e não pelo formato ou tema proposto pelo programa, a ponto de que em meados dos anos 1960 o programa deixou de ser patrocinado pela Indústria Alpargatas e passou a se chamar Grande Rodeio Farroupilha.

“- Era um programa de muita audiência, era uma coisa de loco a audiência que tinha!

grande rodeio coringa

O programa, tendo como seu xiru das falas e posteiro o Darcy Fagundes, possui características simples e peculiares, Darcy não era um homem que se importava com a “propaganda”, mas sim, empregava como maior objetivo a “Arte pela arte, seu objetivo era a divulgação da tradição, como se pode escutar no depoimento de Bagre Fagundes, e deste modo o programa possuía um formato com “inicio, meio e fim” sendo que sempre eram oportunizadas as apresentações das chamadas “invernadas” quais fossem:

Invernadas das duplas ou trios, invernadas dos declamadores, invernadas dos gaiteiros, invernadas dos comediantes e sempre por último as invernadas dos trovadores, sendo que em todos os programas haviam ainda as atrações musicais convidadas, as quais se podem citar: Albino Manique e a Dupla Mirins, Os Serranos, Gaúcho da Fronteira, Mary Terezinha, , Os Bertussi Teixirinha e Gildo de Freitas, Nelson e Janete, etc.

Da literatura que trata sobre o radio no Rio grande do Sul, sob titulo “GALPÃO DO NATIVISMO, NO AR TRINTA E CINCO ANOS DE CULTURA REGIONALISTA GAUCHA” de autoria de José Édil de Lima Alves, além de um vasto conteúdo literário obtido por pesquisas e entrevistas, método semelhante ao utilizado na elaboração do presente trabalho, se encontrou uma narrativa muito assertiva, oriunda recentemente falecido Paixão Côrtes, que para o entrevistador afirmou da seguinte forma:

Foi importantíssima para a transformação de “grossura em cultura””, ou seja, o advento, e popularização dos programas semelhantes ao GRANDE RODEIO CORINGA, além de terem servido como fundamental ferramenta de expansão do gauchismo, também tiveram o poder de transformar a figura do Gaúcho que antes era visto como um “índio vago” ou “ser sem lei” em um agente social cheio de cultura, rodeado do melhor que a se pode exigir de uma sociedade com potencialidades diretamente vinculadas a: HOSPITALIDADE, MUSICALIDADE, DANÇA, DECLAMAÇÃO, DOTES CULINARIOS, entre outros.

“- Por muitos anos foi o programa de maior audiência, como se fosse o “Fantástico” hoje, todos se reuniam para escutar no radio o Grande Rodeio Coringa apresentado pelo Darcy Fagundes!” – Edson Dutra (Os Serranos)

SOBRE O AUTOR:

Anderson Malagurti, Advogado e Ativista Cultural, filiado ao CTG Vinte de Setembro de Curitiba – PR, desde 1998, atualmente desempenha função de Xirú das Falas e 2º Posteiro da entidade (2018/2019).

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