TRADICIONALISMO…

Tradicionalismo
Foto: TV Tradição
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A palavra Tradicionalismo não é nova, é muito antiga. Define uma prática.

O Tradicionalismo Gaúcho também não é, e não nasceu em 1947… Ali ele somente ganhou a dimensão e as teorias bases, mais adequadas para sobreviver, da maneira mais longeva possível.

Pode também haver Tradicionalismo em vários outros seguimentos, além do Gaúcho: o Tradicionalismo alemão; Tradicionalismo do ítalo; do açoriano; dos açoritas; das culturas afros; ameríndias; mestiças; etc.

No nosso caso, aqui, estamos acostumados somente com o ato do “ismo” em cima da nossa Tradição Gaúcha.

Interpretando a palavra, temos a Tradição e um “Ismo”… “Ismo” que significa doutrina, sistema, teoria, tendência, corrente etc., uma palavra que identifica um ato formador de conceitos de ordem geral e coletiva. Tradicionalismo é, portanto, uma palavra que mostra uma clara militância acerca de manter Tradições, sendo a “tendência da Tradição”, a “sistemática da Tradição”, a “corrente da Tradição”, as “teorias da Tradição”, as “doutrinas das Tradições”… Ou, a “manutenção das Tradições” (lê-se manutenção, como sinônimo de “manter”). Em resumo, interpretando-a: sem ter Tradição, não compete abrangência ao Tradicionalismo (…talvez, quem sabe, um dia, lá na frente!… Se não for algo fútil, modista, passageiro e efêmero).

O Tradicionalismo faz militância apenas pelo que ficou e realmente fica, no seio do povo (lê-se povo, não como multidão ou nichos).

Esse “ismo” sendo corrente, possui definições interpretativas e norteadoras claras… Que não são opiniões. São estudos.

Só lembramos que, Tradicionalismo não existe somente – e nem deve existir somente – dentro de Instituições, Clubes e Centros, como conhecemos. É um ato em prol de uma verdadeira “doutrina”, que pode ser solitária ou desinstitucionalizada.

O Nativismo, já é uma outra corrente, que milita e propaga o que é Nativo, porém não necessariamente que ainda possui tradição ou que é tradicional (por isso, nele, há, pode e deve haver muitos temas pessoais inseridos, como no caso das músicas, que contam passagens particulares com roupagem regional). Ele está abraçando, de maneira muito forte, o meio dos Festivais Nativistas, que ocorre espontaneamente, sem “lideranças”, desde 1971, gerando milhares de poemas, letras, melodias, músicas, cantores, músicos e álbuns, periodicamente. Mas cremos que pode ser o Nativismo uma outra forma de chamar o Regionalismo, pois tem elas as mesmas abrangências praticamente, porém sempre foi usado de maneira mais próxima à literatura, principalmente “romântica” e de ficção.

Mas não podemos nos esquecer também do Gauchismo, uma outra corrente, geralmente mais agressiva e, de modo geral, algo “anacrônica”. Temos muitos gauchistas dentro do Tradicionalismo.

Há outras tantas correntes, sem “ismos” em suas definições populares… Como a militância ao Chamamé, em Corrientes, na Argentina (quase que uma “religião”, porém sem uma definição assim)… Ou quanto às tradições germânicas, muito forte em algumas localidades do Rio Grande do Sul… Etc. e etc.

Mas a ideia aqui não é detalhar cada corrente, mas sim citar que elas existem, para entender o quanto que a confundimos, quanto as suas teorias, ou quando não as estudamos, as esquecemos, tratamos com desleixo ou as deixamos a um “Deus dará”.

Sabemos que existem preconceitos, quanto a essas “caixas” – muito do reflexo das modernas épocas de globalização, sem fronteiras e sem tapumes – mas, de modo geral, para quem trabalha individualmente, elas não interferem muito. Alguém que faz Nativismo, não precisa nem saber que faz Nativismo. Quem faz Tradicionalismo, também não precisa saber que faz Tradicionalismo. Porém, institucionalmente, aí sim: tudo deve ser explicado, ensinado, praticado e levado adiante, para a manutenção coletiva, como é a proposta de uma organização institucional para as correntes (ou há outra?). As “caixinhas” ou “gavetas” existem de maneira mais para a teoria, para os estudos sociológicos e filosóficos – como o que aqui tentamos fazer, de maneira humilde – e para quem escreve e as define, saber sobre o que escrever ou definir (ou é saudável se fazer isso sempre instintivamente?).

A Tradição é um ato coletivo e não individual. O Tradicionalismo, portanto, também é um ato coletivo. É a manutenção de práticas coletivas, não individuais. E aqui também devemos diferenciar a Arte, do que é uma Tradição – como já nos diferenciaram nossos folcloristas todos, principalmente J.C. Paixão Côrtes e L.C. Barbosa Lessa. A Arte é uma prática individual, que pode ser aplicada também a um grupo, mas que tem assinatura, propagando numa prática especifica uma visão pessoal (e sempre louvável, devemos dizer). Já Tradição é o reflexo de práticas coletivas, sem nome, sem sobrenome, geradas e propagadas de maneira espontânea, em determinados locais e povos.

Em resumo: Tradicionalismo é coletivo; Arte é individual (importante que se diga). Quem cria assina… Tem de assinar… E assinando, reflete um individualismo, e não um coletivo! E há local específico para isso… Não podemos confundir os locais e as definições!

Hoje também se comenta muito sobre: “representar na dança”… “Representar a dança”… “Representar o Gaúcho”… “Representar uma época”, “um personagem”, “um fato”, e tanto mais… Tudo! Até uma interpretação!

O Tradicionalismo não é uma Representação!

No Tradicionalismo não se representa nada. Absolutamente nada. Essa é uma tremenda falha que cometemos e, constantemente, inclusive é replicada didaticamente dentro do nosso meio, o que mostra o quanto estamos enfraquecidos em termos das teorias basilares e filosofias geradoras e da nossa própria manutenção. E aí devemos voltar lá para o início de tudo, daquele 1947, ano que deu “a dimensão e as teorias fundamentais mais adequadas para sobreviver de maneira mais longeva possível” e muito foi propagada pelos mesmos folcloristas citados acima. Devemos voltar às definições de que: Folclore é que é Vivência; enquanto Tradição é que é Culto… Ou: o Espontâneo é da vivência; enquanto o Programado é do Culto.

Então… Tradicionalismo é Culto, apenas Culto.

Muitos criticam essa definição – ver entrevistas de Paixão Côrtes, no próprio YouTube, para entenderem – defendendo as suas vivências Tradicionalistas. Todos, dentro dessa prática, possuem suas vivências Tradicionalistas, claro, da mesma maneira que todos possuem suas vivências também religiosas, profissionais, sentimentais, familiares, de entretenimento e tantas mais. Dentro do Tradicionalismo a chamada “Vivência Tradicionalista” serve, justamente, para sabermos como propagar e manter a nossa Tradição, ao invés de defende-la como um ato próprio maior do que a vivência do outro colega ou de outros grupos. A Vivência Tradicionalista é a experiência em sabermos como levar essa “corrente”, de maneira saudável, adiante. A teoria dos folcloristas fala de outra coisa, exatamente outra, onde “o que devemos levar adiante é o que cultuamos, não o que vivemos”. Posso viver dentro de um CTG, de todos os modos possíveis… Mas devo cultuar dentro dele e para as pessoas que ali se associam, o que a cultura da nossa sociedade gaúcha construiu.

Vivência é uma coisa… Culto é outra.

Vivemos o nosso dia-a-dia… Cultuamos o que queremos manter!

Cultuar uma Entidade, porém, é manter o Clube, não o nosso Estado… Cada um de nós deve fazer muito mais! Muito mais que isso! Devemos Cultuar o nosso, a Cultura do nosso local… O nosso verdadeiro lugar, com os verdadeiros “padrões” que nos identificam.

Não existe Tradicionalismo sem símbolo!

Não existe Tradicionalista se não Cultuar!

Quando representamos algo, erramos… Podemos errar muito… E só permanece nisto, no ato representativo, quem tem a qualidade para esse ato, “quase teatral”. Quando cultuamos não erramos, ou erramos muito menos. Cultuando todos acertam, pois se reverencia um signo, um objeto, um fato ou cena que merece adoração. Culto é exatamente isso: uma homenagem, devoção, adoração, idolatria, latria, louvor, preito, reverência, tributo, veneração e tantos sinônimos mais (representação é outra coisa: é retratar, caracterizar, reproduzir, teatralizar, etc.).

Não representamos um baile, por exemplo… Nem “Fegadan”, nem “Enart” imita um baile – isso é ilusão criada por alguém, para um evento específico, mas nunca foi baile. Não representamos uma dança… Cultuamos uma dança! Não representamos um fato… Reverenciamos um fato! Não representamos um tema… Veneramos um tema! Não representamos o nosso Gaúcho … Fazemos um verdadeiro tributo ao nosso tipo Gaúcho! É justamente outra a definição e outra a importância… Cultuar é muito maior que representar!

Por isso não existe dança para Mirins, danças para Juvenis, para Adultas e Veteranas, afora as que possuem o uso de arma-branca e de bebida alcoólica. Todas as idades têm direito de cultuar o nosso lugar e os nossos elementos. Quando representamos, criamos conotações, até sexuais, em cima de crianças e adolescentes. Quando representamos, criamos cenas anormais – e algo caricatas, como mãos no queixo, na cintura, no casaco e etc. – justamente para mostrar, igual como num filme ou num teatro, o que o coração não sente e nunca sentiria, mas a obrigatoriedade de um evento ou de uma instrução pede para fazer.

Representar causa “fantasia”, causa a hipóteses, a exceção. Já cultuar causa a recuperação, a disseminação, a adoração. Cultuar não é contar simplesmente algo… Mas dar um valor, quase que religioso e eterno, a algo. É muito mais!

Mas o que cultuamos? O que reverenciamos? O que veneramos?

Se reverenciamos, reverenciamos algo concreto. Deve ser concreto. Se cultuamos, existe algum “objeto” de adoração… Algum ícone, algum signo, algum modelo…

Um símbolo!

O Pezinho é um símbolo nosso. O fichu é um símbolo nosso. A bombacha é um símbolo nosso. O arroz de carreteiro é um símbolo nosso. O modo de atar uma espora aqui é um símbolo nosso. O lado de laçar ou de montar são símbolos nosso. A saia de corredor é um símbolo nosso. E tantos e tantos mais, em todas as áreas regionais que possamos imaginar.

Esses modelos foram buscados onde?

Se buscou justamente no Folclore, que é uma camada mais profunda que o Popular e muitíssimo mais profunda do que simplesmente “ter acontecido no nosso Estado” apenas (ainda se acredita que tudo o que aconteceu aqui é um fato gaúcho). É um nível realmente simples e pobre, onde os nossos elementos mais verdadeiros se mantiveram, por mais tempo. Buscou-se no povo. Do Folclore, que é uma Ciência que estuda a profundidade desse povo – e, neste nosso caso de Tradicionalismo Gaúcho, que estuda o povo rural, descendente direto do tipo Gaúcho – se relacionou, “elencando” através da pesquisa, da análise e de uma conclusão, o que seria, sim, um símbolo identitário da nossa terra e do nosso lugar, de maneira verdadeira ou mais verdadeira possível: autêntica ou mais autêntica (a autenticidade se explica através do conhecimento: não é uma utopia não). ]

E esses símbolos – sinais, atributos, ícones, insígnias, marcas, signos – foram identificados em todas as áreas: da dança, da música, da poética, da interpretação, da personalidade, do trajar, da culinária, do se portar, dos valores. Mas eles não foram simplesmente jogados ali. Foram identificados no tempo, na Sociabilidade, na História e na Geografia – estudando outras Ciências – para não se pecar ao cultuar esses símbolos. Por isso que (exemplificando), com o Chiripá Fralda ou o Chiripá Saia, aqui no Rio Grande do Sul, os instrumentos proporcionais são a Viola e a Rabeca, recobrindo danças Fandanguistas – “Tiranas”, “Anús”, “Tatus” – com cantos anasalados e “modus” proporcionais, que simbolizam também esse período (não que representam, mas que simbolizam).

Dançar uma “Tirana” com gaita, resolve paliativamente o problema… Mas com viola e rabeca, é e fica mais autêntico, mais verdadeiro. A autenticidade é uma busca, não uma fórmula. É um símbolo puro a de buscar se estudar sempre.

Nem citarei a “Invenção da Tradição”, “bíblia profana” (e “marxista” – como aprendi) de muitos Tradicionalistas atuais, se não de quase todo o meio… Não entendendo que, sim, o ato de concorrer pode ter sido “inventado”, mas o que se dança dentro do concurso é, na verdade, um símbolo recolhido, estudado, elencado e divulgado didaticamente. Ou seja: é verdadeiro!!!

Nem citarei a “Projeção do Folclore”, pois isso merece também outro grande texto, com outras teorias também concretas e distantes de opiniões simplistas.

…Sim, como citado acima: nossos Valores também são símbolos nossos, a se manter. Todos. Os pesquisadores mesmo, trouxeram à tona elementos que estavam “sem valor”, dando o seu “real valor” a cada um (esse foi o propósito maior). E nossos valores não são somente sociais. Esses são importantes, e todo Clube deve de repassar: de Futebol, Vôlei, de Natação, etc. Qualquer um tem, ou deve ter, e qualquer um repassa. Nossos valores são muito mais do que apenas isso. São valores inclusive materiais, de imagem, valores instrumentais, de trajar, de dançar, de cantar, de história, etc. Temos de “dar valor” ás coisas nossas que estão, ainda ou periodicamente, sem valor. O pequeno ato de trabalho de uma costureira a mão, ou de uma bordadeira, ou de um guasqueiro, ou de um prateiro, etc., é valorizado e impulsionado “tradicionalisticamente” se dermos realmente valor a ele (bordar na máquina, por exemplo é dar realmente valor ao nosso artesanato local, por exemplo? Pensem nisso!).

Mas dissemos valor, não preço!

Mas Tradicionalismo não é só sentimento não… Há a imagem, justamente para propagar os valores do nosso trajar, dos nossos instrumentos típicos, das nossas danças, sabendo o que estamos fazendo… se não, fica que nem Nico Fagundes disse certa vez: que estamos fazendo risoto de charque, achando que estamos fazendo arroz de carreteiro (não é isso será que estamos fazendo há anos não?).

Esses símbolos todos são imorredouros… Imexíveis. Impossível de se mudar, pois foi o tempo quem os criou, os fez assim e, o próprio tempo, os matou. Simplesmente. Se morrerem ou se mudar, não é símbolo nosso. Não podemos colocar “nossas cores e sabores” individuais ou atuais em algo que aconteceu exatamente de uma determinada maneira (mesmo que não saibamos o porquê daquilo ou tenhamos dúvidas ainda de seus porquês).

De novo: o individual não é Tradição, não é tradicional, não é coletivo; pode ser a minha tradição, a tradição pessoal de uma família ou de um local, mas não a de um povo ou de um local mais amplo, de um Estado; e o individual assinado já é arte, e não Tradição.

As pessoas podem até não concordarem, ou se sentirem “ameaçadas” com essas colocações… Mas, perdoem, é assim. Sempre foi assim, desde o começo do Tradicionalismo. Sempre as teorias – inclusive institucionais – se lavraram e se consolidaram exatamente em cima disso, exatamente isso.

Paciência!

Quando os nossos teóricos e folcloristas falam em “levar adiante nossa cultura e nossos valores”, “disseminá-los”, “se atualizando no tempo”, não significa, em nenhum momento, modificar nenhum desses símbolos recuperados, analisados, concluídos e ensinados… Em nenhum momento é isso. Não posso modificar um Pezinho ou uma Bombacha ou um fichu ou os nossos instrumentos típicos – ou ainda adicionar outros, como um “cajón” – só porque essas “mudanças” abraçarão e trarão mais adeptos ao nosso meio (ou nossa Instituição). O que é, é… Simplesmente. Quando eles citaram para “levar adiante nossa cultura”, “dissemina-la” e “se atualizar no tempo”, era justamente para se utilizar as tecnologias atuais e mais modernas, para ensinar cada símbolo desse – imorredouros e imutáveis – às gerações mais novas. Não se transforma Vaneira em Hip-Hop, só porque a juventude de hoje entende muito mais sobre Hip-Hop. O que se deve fazer é, na verdade, utilizar as ferramentas mais modernas para levar a Vaneira, de maneira verdadeira, a quem é ou gosta de Hip-Hop, possibilitando-o a também gostar de Vaneira, o tanto quanto.

Símbolos não se mudam… Se ensinam!

Agora, podem até nos citar aquela máxima de que: tudo se atualiza no tempo, vindo a mente o caso da Bombacha curta ou da Bombacha Feminina nesse caso, não!?

Claro que tudo se atualiza… Ou se acaba! Mas, não posso cultuar o traje de 1900 me trajando como 2000. Não posso dançar 1850 com danças de 2010. Não posso reverenciar 1800 com os símbolos de 2020. É outra coisa. Não se cultua o traje germânico se vestindo como ítalos. Não se cultua o cantar açoriano em espanhol. Não se cultua a alimentação hispânica com carne de caça russa. Não se cultua o Rio Grande do Sul cantando e dançando “Chacareras” e vestindo “faixas pampas” (os “castelhanistas” ficarão “pês” da vida com essa frase – mas tô “bem costiado”).

Tudo se atualiza, mas não se cultua algo nosso – do gaúcho ou do descendente do tipo gaúcho: não o gentílico – com elementos que não chegaram no nível folclórico profundo. Só o popular: não é nosso. Só em estar aqui: não é nosso. Estar e se usar aqui há alguns anos: também não é nosso. Ter estado aqui e ter sumido em um breve período: não é nosso. O Folclore cita algo em termos de três décadas, para ser considerado folclórico e, afora isso, é ou foi “modismo” efêmero e passageiro. E mesmo assim, pode ter estado mais de três décadas aqui e também nunca nem ter sido popular.

E é isso o que o Tradicionalismo atual, na grande maioria das vezes prega, pecando.

Uma Instituição deve cuidar, acima de tudo, da cultura… Não somente dos seus associados. Nem sempre os associados estão instruídos, seja em qualquer instância (nas bases, nos meios, nos cargos).

Muito do Tradicionalismo atual não estuda, não sabe, nem se quer saber dos símbolos… Militando, na grande maioria das vezes, para até se “modificar” ou se “supor” elementos, para justamente poder abraçar mais membros (muitos membros dos quais amanhã, depois de uma certa idade, ganham novos ares e deixam o próprio meio).

Só não se confunda o “tipo Gaúcho” com o “Gaúcho gentílico”. Por favor! Se todo ato que cultuarmos pode, na verdade, ser dito como apenas “rio-grandense” (gentílico) é de se duvidar se é ou não parte do Tradicionalismo. Pode estar no Rio Grande do Sul, mas não ter nada a ver com o “tipo Gaúcho” e com as nossas heranças. Pode ser parte do “Tradicionalismo germânico” por exemplo… “Tradicionalismo Ítalo”… “Afro”… “Indígena”… Etc., é estar erroneamente inserido no Tradicionalismo Gaúcho. Isso evitaria muitos enganos (como achar que o “flamenco” é gaúcho, o “Malambo” é gaúcho, “Paco de Lucía” é gaúcho… O cinema é do gaúcho, tal fato é gaúcho, tal pessoa é gaúcha… Mas, na verdade, talvez esses, não tenham, em nada, feito nada por nossa gente e nosso lugar).

Lembrem-se sempre: “tipo Gaúcho” e “Gaúcho gentílico” não são a mesma coisa.

Ah… Sem citar – aproveitando a colocação acima – que sempre olhamos para os países vizinhos e seus eventos: Jesus Maria; Las Criollas; Prado; Laborde; Cosquim; Festival de Corrientes; e tantos mais. Há uma idolatria por o verde do vizinho. Nem tudo o que acontece lá são flores, lembramos (e é verdade – acreditem antes de “copiar”). Temos de olhar para lá, sabendo que eles tem uma sociedade 200 anos mais antiga que a nossa, assim como a sociedade paulista, carioca e mineira (que tanto também nos influenciou com heranças luso-brasileiras e caboclas: não neguem essas origens não, elas somente tivera menos “propaganda”) e, sendo mais antiga, podem ter gerado e nos influenciado muito, mas não propagado aqui do mesmo modo (devido a sociabilidade, a politica, a religião, a geografia, a colonização e tanto mais).

Cada local tem seus símbolos coletivos também locais, mesmo que seja uma pequena vila. O que vemos lá, nos nossos vizinhos, de maneira muito forte, é justamente o sentimento essencial muito arraigado, que aqui não temos mais, justamente porque o concurso nos tirou. Afora num “baile a moda antiga” aqui e ali. Lá, numa “peña” em “Quilmes”, na Argentina, por exemplo, vemos e vimos pessoas de campo – ou descendentes de tais – desde as 10 horas da manhã até as 22 horas da noite, num galpão simples – tipo um CTG daqui – em plena cidade, entoarem, homens e mulheres, seus trajes domingueiros, bailando seus temas rurais – somente os seus temas, nenhum de outros lugares ou países – e cantando de maneira visceral, as canções da sua terra – só as canções da sua terra.

Esse sentimento nos falta. Mas esse sentimento, apenas. Os elementos, cantos, danças, trajes, cantos, temos os nossos próprios, que são – simples ou não, bonitos ou não – temos, tão nosso como os deles, podendo, sim, ganhar o mundo, como os deles ganharam, se por acaso um dia os adorássemos como eles fazem – sem querer sempre modifica-los, por acharmos que estão “atrasados no tempo” e não “conversam com a juventude”.

Triste esse pensamento, não (um auto preconceito, será?)!?

Temos uma certa preocupação quando seguidamente nos citam – e todos citam – em escutar as maiorias para definir os rumos Tradicionalistas, principalmente sabendo que, há anos ou décadas, estas gerações Tradicionalistas que temos foram doutrinadas somente para concorrer uns com os outros ou trabalhar dentro do meio, sem receber “quase nada” de didática, nem da diferença básica e fundamental – balizar – de diferenciar Vivência e Culto: a base real de todo o nosso Tradicionalismo, acreditem. A maioria, “treinada” para concorrer ou trabalhar, trará à tona somente preocupações de trabalho e de concurso. Sempre trouxe. E sem saber dos símbolos, não se preocuparão com eles. O que sempre deve de se fazer é escutar e ponderar isto com a nossa cultura realmente, acreditando que pode sim, o meio estar bem viciado, há décadas – muitas décadas.

Se uma maioria decidir que o Pezinho terá de ser agora com a mão, a Instituição abraçará? Deve abraçar? Pensem também nisso!

Quantas coisas não se perderam, só porquê a maioria quis assim? E quantas podem ainda se perder, se a maioria – preocupada com o concurso ou a profissão, apenas – quiser, sem se ponderar com os símbolos, os porquês e os futuros do que é realmente ser Tradicionalista?

Hoje não temos mais nada a nosso favor. Absolutamente nada!

Não temos mais os folcloristas vivos (o que temos são instrutores lançando bibliografias); não temos instituições representativas nos Governos (como havia o IGTF); nossas matérias de pesquisas estão descompactadas e sucateadas nas instituições que existem (museus e bibliotecas); não temos mais técnicos folclóricos e pesquisadores; nossas publicações atuais são replicações do que já tínhamos desde 1951 (quando não, com textos exatamente iguais); não temos áreas de pesquisa dentro do próprio Movimento; o que os eventos jovens pesquisam não são nada publicados, nem em e-books; os congressos servem apenas para a votação; as poucas teses aprovadas lá não são publicadas; etc.

Estamos sozinhos, realmente… a Instituição está sozinha… Quando não, nem com ela os que trabalham com a didática da cultura se está, há décadas. Somente com a organização de eventos, como é o sistema que temos, não vamos nos manter. Vamos nos matar. Como se a nossa relação atual com os nossos símbolos fosse ou estivesse sadio. Bem pelo contrário. Há anos estamos sozinhos. E sozinhos se esquece de que, só organizando eventos, não se mantém e não ensinamos didaticamente sobre a nossa sociedade gaúcha. Em resumo: há um meio cultural não leva cultura, mas leva prioritariamente a mensagem de que “devemos ser melhores que os outros”, enquanto os nossos símbolos, o que é nosso: “Ah, isso fica para depois, né!?… Vamos ajeitando aqui, como achamos melhor para o evento ou como as comissões querem!”

Enquanto e proporcional a isso, os governos nacional, estadual ou estaduais e municipais, não possuem nem geram planos para o Tradicionalismo – onde a dança e o trajar se inserem fortemente, afora outras práticas existentes quase que só ali, como trova, contos e concursos instrumentais – e para a cultura gaúcha, afora festivais nativistas… Isso por acharem que as Instituições e os Centros já fazem a sua manutenção plena e de maneira sadia (nem nos projetos culturais da Aldir Blanc temos credibilidade e qualidade. E sim, também falta a qualidade sim). Mas grave engano… A cultura agoniza. Estamos sem espaços maiores para a cultura regional. E, sem espaços para se trabalhar com arte gaúcha na sociedade, com a cultura gaúcha em teatros, parques, praças e eventos públicos, os profissionais ficam somente dentro do Tradicionalismo, podendo voar e ganhar asas em outros planos maiores e mais amplos, em termos de criatividade… E penam, muitas vezes, dentro dele, buscando salários para pagar seus talentos. Quando o meio fica totalmente profissional, em tudo, daí – claro que – as correntes forçam para práticas somente e quase que exclusivas ao profissionalismo e ao concurso, fazendo com que os nossos símbolos sejam ou deixados de lado ou modificados, por pressão da maioria.

Por isso que muitos citam que, hoje, o Tradicionalismo virou quase que um Nativismo, onde o individual – ou a exceção e o nicho – tem se sobressaído ao coletivo, constantemente.

O Movimento Tradicionalista deve se reestudar, para se manter com o que sempre o balizou, abraçando novas práticas que nunca abraçou, já que seus sustentos culturais externos – todos – não existem mais.

Só eventos não resolverá mais!

Faltará alimento… E o “gigante” atrofiado tombará!

Hoje, vemos logo ali as eleições novamente – anualmente é assim: 6 meses de trabalho e 6 meses de campanha. E todo ano vemos quase que só preocupações organizacionais, pois é assim que fomos doutrinados. São perguntas e respostas em prol do evento, do concurso, do que move isto, sem abrangências quanto às matérias que regem esses eventos (ou, quando não, deixando para a maioria, treinada somente para concorrer, decidir o que e como serão os rumos e as avaliações – sem preocupações maiores com o conteúdo, repetimos: com o que se deve realmente manter ou não é fútil). Tenho amigos bons administradores, que me citaram já, que estão no meio, assumindo responsabilidades, somente porquê sabem gestar e conduzir pessoas.

Esse é o objetivo. Sempre foi. Fomos “treinados” – de novo – para isso. Mas esta na hora (se não agora, mas em breve, muito breve… E esperamos que, por mãos de pessoas com bases culturais, de teorias e dessa amplitude real que é ser Tradicionalista) para que haja verdadeiramente uma retomada cultural, preocupada com símbolos e a didática periódica deles (onde um simples “CFOR”, básico ou não, deixando para cada indivíduo ou entidade o restante do aprendizado, não cumpre com o papel).

É, pessoal… Na nossa visão, a coisa é crítica. Culturalmente, que fique claro!

A engrenagem funciona sim…

…Mas uma instituição cultural deve fazer cultura, não se utilizar dela para fazer o que outras sociedades também fazem… Se reunir!

Repetimos, a sistemática funciona…

…Mas quando se confunde Rio Grande com Corrientes, 1900 com 2000, cultura com esporte, vivência com culto, tradição coletiva com arte individual, símbolo com regra, padrão estudado com engessamento… E tudo isso, dentro do próprio meio… E tudo isso, sem ninguém nem citarei isso no mês das novas eleições… Bom, daí a coisa complica um pouco.

…Um pouco não: muito!…

Mas, bueno…

A “milonga” ficou ampla demais por aqui, eu sei… Peço perdão! Esse tema dá realmente uma boa Tese de Pós, de Doutorado ou de Mestrado (tomara que alguém tente – fica a sugestão: quero ler)… Mas é este, na verdade, um real desejo de bons rumos a um meio que nos viu nascer e nos fez, mas, por simplesmente e somente organizar eventos há tanto tempo, tem retirado, para fora do próprio, muitos e tantos militantes que querem e queriam fazer mais e mais por ele, alçando grandes vôos, acerca da nossa cultura, principalmente na área da produção e da didática (meio hoje somente organizado por uma só Instituição, mas com “miles” e “miles” de Associados).

“…Talvez, quem sabe, um dia, lá na frente!…”

…Para o bem dos que virão!

Bons ventos ao ato de Cultuar, Ensinar e manter nossa gente e os nossos Símbolos… Puros, verdadeiros e tão nossos!!!

Sempre!!!

E vamos de Bombacha, até a morte!!!

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