DE ABUELOS…

de abuelos

Certa vez, Dom Atahualpa Yupanqui, depois de um período de dois anos de uma imersão no Velho Mundo, regressou a sua terra natal, com ânsias de ver o rosto cobre da sua gente, com ânsias de sentir os aromas de umbus e algarrobos, de estar com seus abuelos, mesmo que num sentido espiritual.

Recém-chegado à capital Buenos Aires, partiu rumo ao seu norte profundo, rumo a los cerros. Os avós haviam a muito falecido, tempo suficiente para que as arvores plantadas junto a eles esparramassem seus braços, formando copas frondosas. Neste ambiente de fábulas, Don Ata foi ao encontro de suas almas, que sempre estão nas guitarras argentinas, conforme alguma vez escreveu.

Passeando pela obra do maestro argentino, nos é fácil entender a riqueza dos seus versos e a profundidade das suas notas. São seis cordas que nascem das profundezas da terra e que temblam com a força de serros. E suas coplas, que bem verdade pouco são suas, porque evocam o espírito cobre de uma ancestralidade presente, constante. No entanto, a alma grande do poeta sempre foi nutrida por uma nostalgia que perdurou mesmo nos tempos de estadia no seu Cerro Colorado.

Todos nós temos o nosso Cerro Colorado, nossa Água Perdida.  Tenho me dedicado, nos últimos anos, a pesquisar e escrever num ritmo constante. Estes escritos estão sendo compilados na obra que foi batizada Influência, com sua publicação ainda sem data definida.

Por vezes, nos vemos num emaranhado de fios, que são as histórias de personagens que se cruzam. Desatar esse novelo de múltiplas e facetadas biografias nos exige tempo, atenção, dedicação e mais. Um círculo eterno que, hoje, entendo ser impossível ter um ponto final. Entre as jornadas de trabalho, que sempre me foram prazerosas, adicionei uma nova, que é escrever alguns causos de família. São despretensiosos. São satíricos. Mas mais importante, sempre fizeram parte da minha vida, das minhas lembranças.

Escrever o Influência e escrever esses causos, tem um fundo de semelhança, pelo menos para mim. Por vezes estou no Portugal medieval, em outras, na Florença renascentista. Ora estou na Banda Oriental, “assistindo” boleadas de potros, ora cruzando o Passo Real do Candiota, com cores esmaecidas. E revejo paisagens, e sinto os cheiros e escuto as vozes, que estão lá, em algum lugar da memória. E me lembro das palavras de Yupanqui. Do seu encontro com os abuelos. Os meus também estão lá. Não no Cerro colorado, mas na nossa campanha. E a tela se abre, pois, meus horizontes são verdes e eles são embalados pelo minuano.

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