INDUMENTÁRIA E MUSEUS: A PESQUISA NECESSÁRIA!

indumentária

Há um tempo atrás, de forma muito despretensiosa, escrevi algumas impressões sobre as indumentárias do ENART.

Fiquei surpresa com a quantidade de mensagens que recebi. Elas me fizeram sorrir de alegria e chorar de emoção, de tanta satisfação! São tantos anos lendo, estudando, analisando, pesquisando, e saber que alguém leu e gostou …rs… é uma satisfação para uma professora e eterna estudante.

Quero aqui agradecer as tantas perguntas, elogios, dúvidas e tantos “prazer conhecê-la, continue compartilhando”.

Então… vocês pediram …rs… segue mais um texto! Meio longo. Mas é isso mesmo! (Leiam um pouquinho hoje, ou pouquinho amanhã e tudo certo)

BOM, VAMOS LÁ!

Em 2018 encerrei um ciclo bastante intenso relacionado à minha formação… (aliás segue no [1]fim deste texto o link da minha tese, que também versa sobre indumentária gaúcha, só que masculina[2]). Imaginava ser a última pesquisa que faria. …rs… Coitada de mim! Era só começo de um outro ciclo muito “frenético”

Acabei iniciando um projeto novo, que há muito tempo estava me devendo, agora sobre  o vestuário da mulher gaúcha (não necessariamente a indumentária tradicional, mas sobre o vestir dessa linda mulher ao longo da história).

O foco está sendo a História da Moda no século XIX, e dentro dela, a roupa da mulher e o quanto esses elementos influenciaram o nosso vestir. Técnicas de costura, modelagens, tipos de bordados, combinações de cores, regionalidades, ornamentos e vestibilidades permeiam meus objetivos.

Tenho observado muita confusão quando da interpretação da moda nas reconstituições do vestir histórico da mulher gaúcha. Muita mistura de elementos históricos – modelagens de um período com ornamentos de outro, e assim vai… Só porque hoje a moda “pode” tudo, não quer dizer que, retratar uma época, pode-se tudo também. O sistema de moda mudou ao longo dos séculos, desde o seu surgimento no século XIV. Como exemplo, posso dizer que é tipo incluir o seu filho(a) que nasceu depois do seu casamento na montagem de uma foto deste mesmo casamento… Há de se respeitar os períodos, o que veio antes e/ou depois! (O que veio antes, pode estar em um modelo que veio depois, mas o que veio depois, não pode estar em um modelo que veio antes …rs…)

Esse tema surgiu em razão da falta de aprofundamento que há por parte das nossas pesquisas. Sempre foi dado atenção especial ao Gaúcho. À mulher, é dito que é reflexo da moda de cada período. O que está correto. Porém, nenhum deles aprofundou a moda de cada período (pelo menos que tenha publicado). Até por ser um tema nem tão simples quanto parece.

O único pesquisador que se debruçou com mais propriedade foi Paixão Cortes – o qual eu tenho admiração e respeito. Mas infelizmente publicou pouco sobre indumentária, diante da imensidão de conhecimento que tinha sobre o tema, apenas o necessário para subsidiar as pesquisas sobre dança. O que fez com muita maestria, pois ao longo dos seus textos cita os mais importantes historiadores do vestuário, teóricos de moda e sociólogos… que me impressiona, o que demonstra que leu muito e conseguiu sintetizar de forma muito didática para complementar suas pesquisas. Foi também o único que pesquisou indumentária e não somente vestuário histórico. Vale a leitura das suas obras!

Um pouco sobre outras obras…

É claro que existem outras obras sobre indumentária gaúcha publicadas. Excelentes obras! Mas vou citar apenas as publicações anteriores à década de 1990. Gosto mais.

Você sabia que, embora a “organização” da nossa cultura tenha se dado em 1947, a institucionalização da indumentária gaúcha só aconteceu, oficialmente, em 1961?

Pois é, demorou um pouco até que uma tese fosse apresentada e aprovada. Foi no VIII Congresso Tradicionalista Gaúcho, quando Antônio Augusto Fagundes apresentou “O Vestuário do Gaúcho”[3], fazendo surgir assim as primeiras diretrizes sobre o tema. Em 1977 a obra foi editada e ampliada, dessa vez com ilustrações de Jorge Ibiratan Lopes em formato de livro, e novamente apresentada e aprovada no 23º Congresso Tradicionalista, no ano seguinte. Em todas as vezes Fagundes justificou o trajar da prenda como reflexo da moda dos períodos em que classificou a vestimenta do peão. Mas não explicou esses reflexos.

A institucionalização da vestimenta da prenda acontece apenas em 1989, o texto foi apresentado por Luiz Celso Hyarup, conhecido por suas pesquisas acerca dos costumes, (mas era especialista em figurinos, o que acaba promovendo uma outra visão do vestir), apresentou no XXXIV Congresso Tradicionalista Gaúcho. E, segundo o autor, no final da tese, após sugerir em detalhes a vestimenta da prenda, registra uma curiosa afirmação. Disse Hyarup:

Para encerrar a presente tese concluímos que, do consubstanciado nos itens dos módulos acima apresentados nada poderá ser considerado discrepante ou inadequado no sentido de uma abstrata concepção do ‘naqueles tempos não havia isso ou aquilo’ porque estamos tratando de um traje que não possui nenhum embasamento quer histórico ou folclórico […].[4]

 

Um tanto curioso, não acham?

Embasamento histórico e folclórico. Tem sim! Só tem que pesquisar! Ora, ora, ora!

Teve elementos no vestuário da mulher que não foram reflexos de moda e se tornaram tradicionais. Teve sim!

O fato é que não houve pesquisa. Isso sim! Aff…

Anterior às duas propostas, houveram ainda três obras brasileiras dedicadas exclusivamente ao vestuário gaúcho no século XX. São elas: “Vestimenta do Gaúcho”, de autoria de Paixão Côrtes, publicada pela Revista do Globo em 1953 e em formato de livro em 1959; “História do Traje do Gaúcho Brasileiro”, de 1955, com ilustrações de Isolde Brans, coleção do Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; e “Apontamentos para o estudo da indumentária no Rio Grande do Sul”, publicada em 1957 por Athos Damasceno. Isso na década de 1950 no Brasil.

 

Acervo PUC RS
Fonte: Acervo PUC RS

 

(A obra de Athos Damasceno eu não tenho imagens, mas vocês podem encontrar na biblioteca da UFRGS)

O pesquisador uruguaio, Fernando Assunção – conhecido pela intensa pesquisa acerca da história, publicou “Pilchas Criollas” em 1975, porém, também não aprofunda a moda, apenas cita. Bem como, Véra Stedile Zattera que, mais tarde segue na mesma linha de Assunção, permeando ricas fontes históricas.

Ahhhh…. esses dois me fazem suspirar!! Claro que tem que saber posicioná-los no tempo e no espaço, por se tratar de pesquisas históricas e não tradicionais e/ou folclóricas envolvendo toda região do Prata. Mas ambos fazem uma imersão por documentos históricos que é “coisa de louco”…rs…

Pesquisa semelhante fez o MTG-RS, com uma obra editada em 2003, bem como suas diretrizes posteriores, que seguem a linha do registro histórico.

Excelentes obras. Porém não se dedicam a estudar a história da moda e seus reflexos no vestuário da mulher, no que tange às prendas.

É importante deixar claro que, o fato dessas obras não aprofundarem a moda, não é um problema das obras ou do pesquisador, pois eles deixam claro que falar de moda não era o foco, porém, se tornou um problema para o tema, em razão da lacuna que ficou.

Bom, mas o mesmo não pode ser falado das obras “O Gaúcho”, “Ponto e Pesponto da Vestimenta da Prenda” e “A Moda: Alinhavos e Chuleios”, de autoria de Paixão Cortes e (os dois últimos) com Marina Paixão Cortes, que fazem uma imersão acerca da história da Moda. Porém, percebe-se que publicaram de forma didática e sucinta, comparado às pesquisas e leituras realizadas por eles, que eram profundas (conforme já mencionei, ele tinha muita sede de pesquisa e se dedicou à muitos temas, precisaria de muitas vidas para aprofundar ainda mais todos os temas …rs…).

Bom, essas são as obras acerca da indumentária/vestuário que mais circulam, e portanto, as mais importantes na minha concepção.

Então, se essas obras não falaram de moda, ou não falaram o suficiente, vamos pesquisar, ler, se debruçar sobre o tema e trazer à tona este apaixonante tema acerca do nosso precioso vestir! O vestir da mulher gaúcha ao longo da história!

E para começar, depois de formar meu repertório com leituras dos clássicos da história da arte, da moda, do vestuário e da indumentária (sim, são coisas distintas) e revistas de moda de época, iniciei a parte prática, e isso inclui museus, cemitérios e fotografias regionais. Vou iniciar com este texto acerca dos museus do Uruguai e Argentina.

Os livros nos dizem textualmente como eram os elementos de moda de cada época e em lugares específicos, porém, os detalhes só passarão por uma correta interpretação se visualizarmos o artefato em si, pois os textos jamais serão suficientes. Por isso são tão importantes os museus.

Da mesma forma, a usabilidade da peça, só poderá ser compreendida por meio da análise de imagens fotográficas. E, ainda assim, há de se ter atenção nas fotografias, que deverão ser imagens de pessoas vestidas e não de manequins, como apresentam alguns livros.  Por isso a importância da pesquisa em arquivos fotográficos e cemitérios. Os cemitérios em especial, por exporem imagens de momentos importantes da vida da usuária. As chances são maiores de estarem usando o traje completo, ainda que sejam apenas imagens de meio corpo.

Então, tendo em vista todo este contexto, iniciei nos últimos meses uma maratona pelos museus do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. (somente os museus que tinham em seus acervos artefatos relacionados ao vestuário). Complementando ainda com visitas aos cemitérios e com um olhar apurado nas fotografias antigas de alguns arquivos. O que pretendo fazer durante todo este ano.

Eles têm sido meus lugares preferidos para um encontro com o vestir de outros tempos.

Até o momento foram só surpresas! (Suspirei agora lembrando…)

Quanta riqueza à disposição!

Quantas histórias…

Quantas sementes à nossa espera!

Quanto sentimento envolvido naquelas roupas…

Ahhhh… foi um misto de amor e (P)paixão!

Sim. Estou vendo tudo ao vivo o que leio tanto nas obras do nosso pesquisador maior e em tantas outras que adentram minhas leituras e matam minha curiosidade diária sobre o nosso vestir.

Estão nos museus, nos cemitérios, nas fotografias e nos livros as nossas referências!

Todas estavam lá! Eu vi.

Como diz um “poeta” que conheço: “aqueles brilhos… sedas… foram labaredas… germinaram meus sonhos e agora começam a florescer

Que eu consiga traduzir a riqueza a todos que dedicam um pouco do seu tempo para passear por esses meus escritos! Mais uma vez obrigada pelo carinho…

Minha intensão não é dizer “o que pode e o que não pode”, mas verificar se o que temos nos museus se aproxima mesmo da história moda (Europa, Rio de Janeiro e Buenos Aires que eram os principais centros e foram referências no século XIX), e quais os elementos que refletem a identidade local, para além da moda do período, ou seja, o que da moda não foi usado em detrimento da cultura local.

O foco tem sido as modelagens, costuras, tipologias de bordados, cores, tecidos, tipos de aviamentos e acessórios do vestuário histórico da mulher gaúcha do século XIX, que foi o período em que a identidade local tomou forma.

Vamos estudar, analisar e identificar o que do vestuário encontrado se tornou tradicional a ponto de chamarmos de indumentária da mulher gaúcha. 

Mas antes é preciso ter clareza, ou pelo menos uma noção, do significado de cada termo. De forma prática podemos dizer que Indumentária significa: vestuário tradicional identitário de um determinado grupo cultural. Vestuário: aquilo que cobre/protege o corpo.

Já moda…. Ahhh!! Moda não é roupa. Moda é um fenômeno, que pode ou não estar sobre o vestuário, logo ela também não está relacionada apenas aos tecidos caros, ela pode estar vinculada ao algodão… ao simples. Acho que vale uma leitura, mais aprofundada, quem quiser conhecer este universo. Aliás, outro dia eu estava lendo “O Gaúcho”, do Paixão, e ele esclarece de forma muito didática… olhem lá, na página 105. Ou também, tem ainda Roland Barthes, Gilles Lipovtsky ou ainda a minha teórica de moda preferida – Mara Rúbia Sant’Anna, eles podem super esclarecer, indumentária, vestuário e moda. (outro dia eu faço um vídeo explicando também)

Será que a moda chegou mesmo por aqui no século XIX?

Sim. A moda chegou aqui e permeou tuuuudo! Algumas regiões mais, outras menos. Inclusive aquelas mulheres do interior. Sim…. chegou lá no campo (que os meus colegas insistem em dizer que não! É só visitar os cemitérios do interior e ver as fotos dos túmulos.) Estas também beberam da moda de forma indireta. Os tecidos, ainda que simples; fios e linhas; botões, ainda que artesanais; o calçado; as técnicas de costura, tudo isso teve de ter referência para que elas pudessem criar suas roupas. Ilusão pensar que elas produziam do fio ao tecido, botões… tudo no campo, sem contato algum com o que existia. Se elas não iam ao povo, mas os mascates iam até elas. Talvez não o que a moda ditava por completo, mas as referências de moda, sim!

Bom, para descobrir se as referências de moda chegavam até elas, estou analisando a moda de cada período, as peças que hoje integram as reservas técnicas dos museus e as fotografias expostas nos túmulos do século XIX e início do século XX. (tendo em vista que a nossa indumentária permeia o período da Belle Époque – época em que a cultura identitária começa a se cristalizar em diferentes lugares. Essa é a época que serviu como modelo identitário para a nossa cultura, pois foi a última fase antes das roupas encurtarem, se tornarem unissex e de abolirem muitos preceitos de civilidade que permeavam os modos de vestirem-se.

Então vamos aos encantos dos museus que visitei na Argentina e Uruguai (e no próximo texto nos museus do Rio Grande do Sul).

Estou encantada com tanta riqueza que “dorme” tranquilamente nesses acervos!

Recebem poucos visitantes pesquisadores e por isso aquelas roupas atravessam décadas guardando em segredo suas usabilidades da época em que viviam envolvendo corpos.

Permeei os sonos daquelas peças e acho que dei uma sacudida naquelas tramas, só com a força do meu pensamento …rs… Vamos acordar né??! Nós queremos conhecer vocês!

Segue abaixo (inicialmente) os principais museus da Argentina e do Uruguai que tinham em seus acervos artefatos e que serviram de fontes para compreender o que encontrei nos museus do Rio Grande do Sul. FIQUEM ATENTOS, NÃO ACHEM QUE TUDO ISSO SE USOU POR AQUI, POIS TEMOS QUE NOS ATENTAR PARA AS NOSSAS ESPECIFIDADES REGIONAIS. 

Museo de la Historia del Traje – Buenos Aires/Argentina

Este é o maior museu de trajes da América do Sul. Tem um rico acervo com peças desde o século XIX e está aberto para pesquisas. Passa por dificuldades, como todo museu, mas tem uma equipe muito dedicada.

Tive a oportunidade de pesquisar com acompanhamento das restauradoras e museólogas (não são todos os museus que autorizam o acompanhamento desses profissionais) e isso facilitou muito meu trabalho. O século XIX é dividido, pela História da moda, em quatro grandes estilos – Império, Romântico, Vitoriano e Bella Époque, por isso solicitei antecipadamente e recebi autorização para pesquisar em artefatos das quatro épocas. Quando cheguei ao museu já estava tudo separado… um sonho!

O sentimento eu não sei explicar.

Os avessos traziam o que hoje chamamos costuras invisíveis, os bordados franceses, os vestidos costurados manualmente, a moda impregnada naquelas peças, modelagens criadas por meio de técnicas de moulage, um casaquinho feminino com mais de quarenta recortes –incrível!  Botões artesanais criados com os mesmos tecidos dos vestido, babados incrivelmente pensados…. posso dizer que não me contive….foi emoção mesmo.

Museo de la Historia del Traje – Buenos Aires/Argentina

Museo Nacional de Arte Decorativo – – Buenos Aires/Argentina

Um luxo! A começar pela edificação!! O interior em Rococó de uma das salas… você não sabe onde começa o teto e onde termina a parede… Um espetáculo da arquitetura neste tempo!

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Este museu tem o maior acervo de camafeus da América do Sul. Um luxo! Observem que são camafeus de porcelana com retratos, com pinturas em esmalte, uma das técnicas mais caras que existe. Uma espécie de relicário, muito usado por aqui. (saiba mais sobre camafeus no vídeo no fim deste texto[5])

Faz muito tempo que queria ver de perto. É uma coleção gigante! Eles disponibilizam ainda lupas para verificar os detalhes das pinturas. E, tanto no Rio de Janeiro, onde tem uma coleção dessa natureza – no Museu Imperial, como em outros museus menores, os desenhos que os integram são sempre retratos de pessoas importantes para a usuária.
Inclusive, antes do casamento a mulher era presenteada com um camafeu, em formato de relicário com o retratos da pessoa amada …rs… Que lindo!

Na América do Sul como um todo, foi mais comum o camafeu de porcelana com retratos pessoais, do que o camafeu com deusas entalhados em pedra ônix, embora também tenham chegado aqui. (encontrei também nos museus do Rio Grande do Sul, no próximo texto mostro eles… lindos de viver!)

O museu conta ainda tecidos brocados do século XVIII vindos de Lyon que estão emoldurados. (Lyon é uma cidade francesa referência em tecidos luxuosos que exportou muito para o Brasil no século XIX).

Museo Nacional de Arte Decorativo - – Buenos Aires/Argentina

Museo de Arte Popular José Hernández – – Buenos Aires/Argentina

A riqueza deste museu está no arquivo de obras raras do século XIX e XX que eles têm na biblioteca em anexo (Arquivo do Folclore Argentino). É um sonho!
Quem quiser fazer pesquisa é só agendar, eles são muito dedicados. Passei o dia por lá, e só saí em razão do horário… pois tinha que fechar.
Uma das importantes obras é de fotografias gaúchas do século XIX, com 453 imagens. Uma preciosidade com notas explicativas. Me fez viajar por horas….

Este museu não tem um acervo de peças/artefatos históricos, eles trabalham para a disseminação da arte popular e tradicional da Argentina, realizando cursos ao longo do ano e oferecendo exposições temporárias.

Fonte: Livro do acervo do museu/GIMENEZ PALADINO, Jose M. El Gaúcho 1860/1930. Buenos Aires: Palsa, 1971.
Fonte: Livro do acervo do museu/GIMENEZ PALADINO, Jose M. El Gaúcho 1860/1930. Buenos Aires: Palsa, 1971.

Museo Nacional de Bellas Artes – – Buenos Aires/Argentina

Este é o museu com o maior acervo de obras de arte originais dos importantes pintores que retrataram o Gaúcho no século XIX – como Carlos Morel, Raymond Quinsac, Carlos Enrique Pellegrini , Prilidiano Pueyrredón  e Jean León Palliere.

As telas parece estarem vivas! Estão vivas! Elas conversam… elas brincam… elas falam!

Elas têm alma! Sem explicação a riqueza de detalhes de cada uma dessas obras! (Senti mais emoção batendo essa foto do que com o quadro da Mona Lisa …rs…)

É certo que a reprodução dos livros não passam nem a metade do que elas realmente são! (Mas mesmo assim, encontrei nos sebos por lá todos os livros dessas obras e comprei – passarei um bom tempo pagando, mas tudo bem …rs…)

Fica o compromisso de fazer um texto só com os pintores do século XIX.

Queria mais vidas para ficar compartilhando tudo com todos …rs…, mas vou fazer! Prometo.

Museo Nacional de Bellas Artes - – Buenos Aires/Argentina

Museo Gauchesco Ricardo Güiraldes – Areco/Argentina

Este museu retrata a história de Güiraldes, mas não só! Tem um acervo muito rico com peças voltadas ao Gaúcho. Um poncho do início do século XX e uma escola de ponchos logo na entrada do museu.

Ao visitar o museu, revivi minhas escolhas. … Paixão Côrtes me mostra todos os dias o quão importante é buscar as verdades históricas da nossa cultura, para que possamos seguir de forma autêntica; os viajantes dos século XIX me mostram como era de fato. … mas Ricardo Güiraldes me ensinou a permear o Gaúcho e vivê-lo. Com ele aprendi que livros devem contar mais que histórias. Livros devem retratar sentimentos, devem tocar o coração do leitor e mudá-lo de alguma forma… assim ele fez comigo em “Dom Segundo Sombra”. (por isso acho importante dizer as minhas impressões do que vi …rs…)

Güiraldes vivia entre Argentina e Paris… tinha recursos financeiros para lá ficar se quisesse… tinha conhecimento suficiente para escrever outros temas… conviveu com os mais famosos escritores franceses do início do século passado. … mas escolheu falar dele – O Gaúcho.

Mas não falou de qualquer jeito, retratou o gaúcho com o qual conviveu – Dom Segundo. E tocou os mais íntimos sentimentos do seu povo.

Assim como no Brasil, como também no Uruguai com Elias Regules… A Argentina também passava por um processo de “modernização” de deixar de lado as coisas da terra em detrimento da cultura europeia. Foi quando Güiraldes entra no universo Gaúcho por meio da literatura, em 1926, falando do último Gaúcho que trabalhava em sua Estância e, como dizem os argentinos “por meio de um nacionalismo sútil, recuperou o passado com alma gaúcha por meio de uma prosa poética” e encantou com imagens textuais vívidas…. e me encanta com a riqueza de detalhes cada vez que leio. …impossível entrar no museu e não se encantar, ali vive o que dá sentido a tudo o que acredito.

Museo Gauchesco Ricardo Güiraldes - Areco/Argentina

Museo Historico Nacional – Buenos Aires/Argentina

Este museu trata mais do universo militar, no que tange o vestuário. O que me chamou atenção foram as fotografias. Uma em especial de um grupo de dança de 1910 (segundo registro, tinham acabado de dançar o Pericon) A Indumentária segue a mesma linha do grupo dos Irmãos Podestá (quem não assistiu o meu vídeo falando deles … assiste lá[6]! Tem fotos também heheheh)

O famoso poncho (todos os livros sobre poncho ele se destaca como protagonista) que foi doação de Juan Manuel de Rosas para ao seu médico estava lá: pleno descansando no meio da sala do museu. Lindo de viver!!! Todo de vicunha, com bordados em ponto cheio e costurado manualmente. Um trabalho manual luxuoso!!

Outra peça que chama atenção é o colete com botões criados com a técnica dos botões de couro, a rica diferença que é trançado com fios de seda. Uma preciosidade! Percebi também que todos os coletes eram anatômicos na frente e com muitos recortes, no interior da peça inclusive. Conclusão: super preocupação com a modelagem né!?
Os forros dos palas e ponchos, vi também que tinham em tecido xadrez (vários).

Quanto aos bordados, só vi ponto cheio (mas precisa ser melhor pesquisado).

Museo Historico Nacional – Buenos Aires/Argentina

Museo Historico Nacional – Montevidéu/Uruguai

Este não é do tipo de museu que tem um acervo segmentado. Mas é encantador. Tem de tudo um pouco! E, entre as peças que nos interessam, há duas em especial – um vestido que bem retrata o período do Romantismo no Uruguai e um pala de Vicunha.

Tive a oportunidade de ver de perto os bordados manuais em ponto cheio, o largo babado e o chale franjado. Minha impressão é de que as aquarelas de Adolphe D`Hastrel e/ou Leon Palliere tinham se materializado na minha frente.

O vestido me apresentava um Romantismo (estilo artístico) envolto de um identidade própria, em razão da quantidade de bordados minuciosos, mas carregava as cores da moda do período. Lamentei ver o vestido centenário em pé em um manequim que estava longe de ser parecido com o da sua dona! As tramas do tecido, embora originalmente estruturado, já não aguentavam o seu próprio peso, e a graça da modelagem da saia, que poderia estar um pouco mais armada, estava visualmente parecendo a silhueta da Belle époque. Mais uma razão para confundir as pessoas quanto ao seu período. Que pena! Da mesma forma o pala. Mais a técnica justificou que deve ficar ali…ambos pertenceram à pessoas politicamente importantes para o país, e por isso estavam expostos.

Tá bom então.

Museo Historico Nacional – Montevidéu/Uruguai

Museo Del Gaucho – Montevidéu/Uruguai

Esse é especial! O acervo está todo exposto e as peças são do universo do homem, todas originais. Mas, sem dúvida que o que mais me chamou atenção, além do seu acervo, foram as atividades de cunho educacional desenvolvidas pelo museu.

Me contava a diretora que eles recebem escolas diariamente, não apenas para visita, mas para aulas sobre os hábitos e costumes do Gaúcho (aliás vale dizer que elas são uns amores… me ajudaram muito na época da minha tese). A atividade faz parte do currículo das escolas. Na ocasião acompanhei uma dessas aulas e fiquei impressionada. As falas das professoras versavam sobre a indumentária, quase que todo o tempo. Falavam com muita propriedade, citavam os viajantes e tinha réplicas de algumas peças para demonstrar.

Que lindo!

O Uruguai, mais uma vez, sai na frente com a preocupação de preservação da identidade nacional.

Bem que poderíamos copiar não é?

 Museo Del Gaucho – Montevidéu/Uruguai

Museo Dr. Elias Regules – Montevidéu/Uruguai

O museu faz parte do complexo da Sociedade La Criolla de Montevidéu – Primeira instituição fundada com objetivo de preservar a cultura gaúcha (quem quiser saber mais sobre a história desta instituição assista ao vídeo no final deste texto[7]).

O museu possui um amplo acervo de fotografias desde a fundação, em 1894, além de objetos, artefatos bordados, como faixas e bandeiras originais.

As imagens por si só, além de contar a história da instituição, trazem nuances do vestir de outros tempos. Embora sejam indumentárias reconstituídas, passam de cem anos… e os detalhes são encantadores. Os babados, os aviamentos e os tecidos pouco estruturados… de algodão trazem um ar de simplicidade, porém de muita elegância. Elegância de uma história tão bem reconstituída.

Agora consigo entender o encanto de Paixão Côrtes na ocasião de sua visita em 1949 em Montevidéu.

Eles são sim, referência em organização e preservação da identidade nacional.

Museo Dr. Elias Regules – Montevidéu/Uruguai

Museo Juan Manuel Blanes – Montevidéu/Uruguai

O museu é dedicado às obras de Blanes, mais importante pintor uruguaio responsável por retratar a identidade nacional na segunda metade do século XIX. Diante do contexto em que o gaúcho se encontrava, Blanes retratou e colocou a indumentária do Gaúcho como protagonista. A ela coube contar fatos que já era passado. Mas ele conseguiu trazer um passado repleto de encantos. Suas obras são vestidas de sentidos. Sentidos de uma história real permeada de valores.

Ver de perto os famosos “Gauchitos de Blanes”, me permitiu analisar cores e detalhes pormenores que em reproduções jamais havia visto.

Ver de perto suas obras, me permitiu me transportar para um tempo onde ele já estava sozinho no campo! Preferia não ter me transportado…

O Gaúcho já tinha dado adeus ao seu mundo… àquele mundo onde haviam ele e o gado livre nos campos em abundância… Ou seria que a “civilização” interveio e forçou esse adeus?

Ao mesmo tempo em que as suas obras me permitem compreender a indumentária de forma mais clara, a mensagem que ela passa desses gaúchos solitários, me deixam angustiadas… me mostram o fim de uma era… (deixa eu voltar para o foco aqui …rs… a indumentária!)

Mas vale mesmo estudar a obra “Los Tres Chiripas”, que mostra claramente as três épocas da indumentária do Gaúcho. É a melhor obra para o estudo do tema! (procurem que deve ter na internet)

Museo Juan Manuel Blanes – Montevidéu/Uruguai

Museo Municipal – Colônia do Sacramento/Uruguai

Este museu segue o estilo do Museu Histórico Nacional de Montevidéu, tem um acervo rico, mas é composto “de tudo um pouco”. Em se tratando de indumentária, duas peças me chamaram atenção, uma gola de Renda de Bilro e um pente duplo de casco de tartaruga.

O pente ainda mais, por se tratar de um modelo que nunca havia visto. Acho que devo ter passado um mês pensando no tal pente, até que encontrei uma revista de moda do século XIX que falava dele. Encontrei outros modelos duplos também… o objetivo é segurar melhor o penteado. No final do século XIX os penteados ficaram mais diversificados, e muitos outros acessórios de cabelo diferenciados (pra não dizer esquisitos) começaram a surgir. Há também um modelo de um desses pentes diferenciados no Museu Palácio do Catete no Rio de Janeiro. São da mesma “família” …rs… Mas no momento oportuno vou trazê-los como protagonista de um desses textos aqui.

Museo Municipal – Colônia do Sacramento/Uruguai

Bom, vou ter que encerrar este texto, pois está longo demais!

Logo trago a parte dois, relatando o que “vivenciei” nos museus, cemitérios e fotografias de arquivos do Rio Grande do Sul, e suas relações com o que encontrei nos museus da Europa, do Uruguai e Argentina.

Preciso reforçar que busco sim pesquisar em toda a Região do Prata e a influência no Brasil. Claro que não dá pra achar que tudo isso refletiu tal e qual no Brasil…. é preciso buscar e comprovar, pois não podemos esquecer das especificidades regionais. Mas, ao mesmo tempo, não dá pra ficar dentro de uma “bolha” achando que tudo surgiu daqui e só se usou aqui (o vestir feminino pelo menos) Tudo tem história… e veio de algum lugar.

Essa é a graça da História: pesquisar a origem e dar sentido às coisas.

No movimento gaúcho temos a oportunidade de mostrar essas nuances do passado que nos enriquece e que dão sentido!

Então…
Que possamos nos cobrir de histórias, de memórias, de valores!
Que possamos mostrar mais que corpos cobertos…
Que possamos gritar para o mundo a nossa história… Sem esquecer que essas histórias foram vividas por pessoas de outros tempos, que se vestiam de ricas técnicas artesanais…

Que possamos mostrar uma cultura com mais valores históricos!

Com carinho

Edinéia

LEIA MAIS: QUER SABER MAIS SOBRE INDUMENTÁRIA? 

[2] https://tede2.pucsp.br/handle/handle/21196

[3] Ata do VIII Congresso Tradicionalista, realizado entre 20 e 23 de julho de 1961, em Taquara, Rio Grande do Sul. Acervo do Movimento Tradicionalista Gaúcho – RS.

[4] ZATTERA, Véra Beatriz Steile. Vestuário Tradicional. Porto Alegre, Palloti, 1998, p. 178.

[5] https://www.youtube.com/watch?v=U16raMQeyvQ&t=2s

[6] https://www.youtube.com/watch?v=e5mKjQ5ezBI&t=1s

[7] https://www.youtube.com/watch?v=IGJJPXBlO8g&t=14s

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Edineia Pereira é graduada em História pelo Centro Universitário de Brusque – UNIFEBE; Design de Moda pelo Centro Universitário Carlos Drummond de Andrade; Especialista em História Cultural pela Facel; Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS e Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, com pesquisas e obras sobre o Gaúcho. Há dez anos se dedica a docência nos cursos superiores de Design de Moda e Arquitetura e Urbanismo, ministrando disciplinas de História da Arte, da Moda, da Indumentária e da Arquitetura. Atua na área de gestão universitária com pesquisa, extensão e cultura, como membro do Conselho de Ética em Pesquisa CEP/CONEP e Conselheira Municipal de Cultura. Participa efetivamente do Movimento Tradicionalista Gaúcho há trinta anos. Foi Primeira Prenda do MTG – SC e Primeira Prenda da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha – CBTG.

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