UM BAILE DE PÉ-DE-CABRA

baile do pé-de-cabra
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Lá por meados de 2002, em Antônio Prado, em um curso do nosso mestre Paixão Côrtes, no CTG Cancela do Imigrante, entre explanações e detalhes de algumas danças do programa, as histórias costuravam espontaneamente a beleza do que seria somente um curso técnico, fazendo do mesmo um encontro tão cultural e de grande absorção do verdadeiro Folclore do nosso Estado.

Numa das danças repassadas, contendo em seus passos fundamentais passos de Polca (não me recordo se uma Havaneira Marcada ou um Chico Sapateado), o Seu Paixão explana sobre um inusitado baile que participou, na região de Santa Funda, antes pertencente à Vila de Maquiné, distrito de Osório, porém hoje parte do município de Terra de Areia.

Já contamos sobre este fato, em outra coluna (A Sanga-funda, o dia de Reis e as Queromanas)…

Segundo contou Paixão, era uma virada de ano, na mesma oportunidade em que assistiu a um Terno de Reis por primeira vez, e que recolheu a dança da Queromana com o mestre daquele Terno, o Sr. Leodato.

O baile era um tal de Xixo Bruto, organizado meio de “sopetão”, através de um “Assalto”, ou uma “Surpresa”.

O Assalto é uma modalidade tradicional de baile da campanha, quando se chega sem avisar na casa de determinado amigo ou parente, com uma turma, acordando a todos com foguetes e cantorias de serenatas. Geralmente acontecia em datas festivas, aniversários, batizados ou até, quem sabe, num dia de Natal ou ano novo. Os amigos chegavam e já apeavam “pra dentro”, organizando uma bailanta improvisada, a base de violão e cordeona, até o dia clarear.

Os donos da casa já preparavam umas galinhas, já colocavam água no fogo, pegavam mais lenha pras panelas, isso tudo enquanto os convidados já se adentravam na cozinha, abrindo as compotas de doces, cortando queijo, bolos, torresmo, tudo o que encontrassem pela cozinha, pra aguentar o entretenimento sadio de uma noite antiga campechana.

Mas, num rancho simples de madeira, claro que não cabiam todos…

Então se recorria a um artifício simples: a um pé-de-cabra! 

As casas de madeira da nossa gente rural, também de madeiras, dividiam a sala dos quartos e da cozinha, sendo de fácil manejo, contendo simples pregos, prendendo-as junto ao piso e aí forro. E é aí que a turna animada, já de ferramenta em punho, despregava a parede para retirá-la da casa ou recostá-la num dos cantos…

E o espaço se ampliava, com toda disponibilidade possível para o bailar de nossos temas campechano… Neste caso, danças de quarta geração coreográfica… Incluindo o “Xixo Bruto”.

O Xixo vem de cincho, de apertar (igual na feição dos queijos)… Mesmo ato que também deu origem ao termo Bochincho ou Bochinche. Era um tema, quase que como uma Havaneira, porém com características próprias, tocada a base de violão e acordeona (como já citado), como uma mistura dos nossos temas regionais gaúchos com sotaques “caipiras”, assertanejados, reminiscentes já do moderno ciclo da rádio, trazido nas ondas largas de um AM, ante os temas que rodavam em SP, PR e SC.

Dançava-se apertado – que nem “cincho” – com um “sabor” corporal próprio, cheio de “molejos” e trejeitos propícios para se apertar realmente a dama.

E o Xixo Bruto animava a noite toda, com os músicos à beira da janela, tocando (em alguns casos) tanto pros que dançam dentro do rancho, como pra peonada que aproveitava o raro momento de música na campanha, pra também bailar na rua, no terreiro, deixando o rastro das chinelas de couro pelo piso do chão molhado pelo sereno da noite.

Se o gaiteiro soubesse somente um tema, era esse tema que se estendia até o amanhecer, sem nenhuma necessidade de alterar a melodia… O dançar e a festa é que era o realmente importante.

E era assim um “baile de pé-de-cabra”…

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Baile esse citado por Paixão Côrtes nesse curso.

Para muitos somente uma curiosidade, mas, para mim, um achado… Uma história das tantas que podemos ficar ouvindo e se entretendo, sem ver a hora passar. Era algo realmente de valor, sendo ali repassada como realmente uma informação relevante e importante a ser passada adiante (se não fosse para ser passada adiante, não teria porque ser ventilada).

Fiquei com aquilo durante tempo na cabeça… E como em seus escritos não havia grandes detalhes sobre o Xixo Bruto e sobre um Baile de Pé-de-cabra (há pouca coisa), fiquei somente com aquela lembrança do curso como referência.

Em 2007, algo como 5 anos depois do curso, pós um ensaio que tivemos com o próprio Paixão, Iedo Silva (do Conjunto Os Farrapos) e Luiz Kur, para o show de lançamento dos CDs de Paixão Côrtes na livraria cultura, em Porto Alegre, no shopping Bourbom Country, Iedo e Kur já tinham se despedido, e fiquei até umas 20h ou mais da noite, conversando com Seu Paixão sobre coisas da nossa terra, principalmente sobre música é temas antigas…

E, entre os assuntos, relembrei aquele Xixo Bruto bailado num “assalto” na beira da Sanga, que dá nome à localidade de Sanga Funda. Foi aí que ouvi a mesma história, citada 5 anos antes, lá em Antônio Prado, somente a título de curiosidade, agora com entornos e passagens de emoção.

Não deu outra…

…Sai dali querendo transformar o tema em canção!

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Na época não sabia da existência do tema Xixo Bruto, composto e gravado por Bruno Neyer, também baseado nas explicações do mestre Paixão (soube somente em 2017, também através do Seu Paixão que o tema existia). Mas logo depois saiu a ideia de alguns versos, estruturado em 6 estrofes de 4 versos casa, com métrica de versos alexandrinos.

Deixei as estrofes em quarentena, pois não sabia ao certo se estavam bem… Processo normal. E sem ter a certeza disto, resolvi tentar mandar o poema aí grande parceiro de versos (qual compúnhamos seguido na época), João Sampaio. O tema foi, num lote grande de poemas enviados, mas não agradou a lavra do poeta itaquiense, continuando assim em quarentena.

Depois de compôr numa noite de vinho, fogo e carreteiro, lá na beira do Rio Cai, em um campo de Nova Santa Rita, o chotes “Floreando”, sobre poemas do também amigo Filipe Corso (que gostava demais de Chotes), certo dia o Filipe me manda uma mensagem que havia composto uma melodia também então para um chotes, porém sem letra… E havia me enviado via Messenger (MSN à época) para ver se gostava ou se havia alguma letra que coubesse no tema.

E não é que os versos do Pé-de-Cabra se enquadraram certeiros na melodia!?

Enviei a letra para uma aprovação… E, no mesmo dia, o Filipe me retornou com a letra enquadrada na melodia, casando direitinho.

Uma certa tarde (isso tudo lá por cerca de 2010), fui em seu apartamento, no centro de Canoas, tomar um mate (mesmo apartamento onde nasceu das lavras do Filipe os tema de “Tirana do Lenço Florido”, “Uma Milonga e Más Nada”, “Maria Falta uma Rosa”, “As Flores de Maria Flor”, “Pintanga”, “A Flor do Cabo da Faca”, “Queromana Mariquita”, e tantas outras mais)… E quem sabe emoldurar nossos temas, como seguido fazíamos. E esse chotes entrou na fila…

Revisamos a letra do mesmo, no mesmo dia… Fizemos uns versos pacholas para uma declamação inicial, colocamos o Seu Alflino no tema (homem gaúcho, conhecido pelo Corso… Eu não o conheci), revisamos toda estrutura, e colocamos os lugares em comum que conhecíamos no tema… Inclusive, claro, aquela Santa Funda, da antiga Maquiné (por coincidência também uma localidade local homônima, existente no município de Nova Santa Rita, onde aquele chotes “Floreando” havia nascido, tempos atrás).

Em breve tínhamos a gravação feita, com guitarrón, violão, baixo, pandeiro, declamação, alguns galos cantando no tema, e até uma sonoplastia percussiva de esporas nazarenas (da nossa coleção pessoal). Ficou ajeitado! Que gravação bem buena de se escutar que  ficou…

Ficou de sair bailando um chotes largado, bem à moda dos “antigamente”, como nos tempos desses “assaltos” campechanos, dos de se tirar parede a base de pé-de-cabra, pra poder caber “tudo” os convidados.

Certa feita, um tempo depois, antes do rodeio de Vacaria 2012, conversando com meu instrutor de sempre, Rui Arruda, ele comentou que precisava de um chotes pra montar o “duas-damas” do CTG Pampa do Rio Grande, para o concurso de danças da Vacaria (Vacaria 2012), qual participaríamos.

Comentei desse chotes, chamado por nós de “O Baile do Pé-de-Cabra”, inédito, contando todos detalhes da criação do tema, principalmente de sua fonte inicial de inspiração e de manutenção, que foi aquela história contada por Paixão Côrtes, num curso de danças em Antônio Prado, 10 anos antes.

Mostrando o chotes, o encantamento foi imediato, tanto do Rui como dos colegas dançarinos, sendo que, a partir daí, não havia mais como retirá-lo do repertório musical do grupo de danças.

Foi assim que, mesmo inédito, o tema esteve no palco da Vacaria de 2012, na apresentação classificaria de sábado, numa baita apresentação, onde a considero como uma das melhores da minha vida (tanto pelo clima como pelos amigos que estavam dividindo o palco conosco, todos alegres e realmente se divertindo em palco, longe de uma técnica absoluta e harmônica em exagero).

 

 

Curioso foi inclusive o Renato Petím, um dos maiores ginetes que o Rio Grande do Sul tem ainda hoje, morador de Canoas (filho do personagem “Seu Petin”, retratado no chotes já citado, “Floreando”), assistido as danças bem na hora da apresentação do CTG Pampa do Rio Grande, escutando o chotes e o nome de Filipe Corso no microfone (quase que um afilhado do Renato),

disse para sua esposa:

“Mas tu vê, quem diria. Ontem táva pela ‘afetando’ pela volta do galpão do Mato Grande, e hoje tá aí, com o nome sendo anunciado no palco do maior rodeio crioulo do Brasil!”

Realmente esse progresso aconteceu, mal sabendo o Petím que muito também havia dele naquele chotes, sento apresentado em palco, pela primeira vez, em Vacaria.

O prêmio de campeão daquele Rodeio consolidou a música, permanecendo inédita durante mais 5 anos (apresentada somente em rodeio artísticos, durante a dança do “Chotes de Duas-Damas”)… Até que em 2017 a música “cruza” na triagem do “Canto Farroupilha” de Alegrete, pra nossa felicidade, depois de anos enviando.

E o tema saiu do anonimato de vez, ganhando o palco e o  público em Alegrete, com um time realmente de peso, sendo defendida pelo grande cantor Marcelo Oliveira junto com Rafael Prates, somado a Filipe Corso no baixo, Henrique Corso no violão, Roberto Borges no violão, Cristian Camargo no guitarrón e Aluísio Rockemback no acordeom… Que turma!

E tudo em seu tempo…

 

15 anos depois do Curso de Antônio Prado, 10 anos depois da charla no rancho do Seu Paixão, 8 anos depois do nascimento da melodia e 5 anos depois do campeonato do rodeio de Vacaria de 2012.

-X-X-X-X-X-

Um ranchito de madeira,
Pequeno, qual a esperança…
– Mas tudo se dá de jeito
Se o motivo é a própria dança!…
Até o leitão foi pra faca
E as “galinha” pra panela…
Não para de chegá gente
Se eu bombeio pras “janela”!…
Por isso “Alflino”, socorre!
…Que o povo já cruza afoito,
Se amontoando pela sala,
Mais do que trança de oito!!!

Baixa “Alflino”, e traz o pé-de-cabra antigo,
Que hoje tem baile na beira do “Paquetá”…
Tira as “parede” pra caber os “convidado”,
Que o xixo bruto vai até o dia clareá!

Vão vir gaiteiros do “Cajú” e da “Olaria”,
Daqueles velhos, que conhecem bem um chote…
– Tocam vaneiras, como somente eles mesmos,
E um bugiu macho, de requebrar té o cogote!

E uma guitarra vem, alí do “Mato Grande”,
Pra dar o timbre, até que o baile se acaba…
– Tira as “parede”, “Alflino”, pra aumentá espaço,
Que esta farroma… só sendo com o pé-de-cabra!

Sem as “parede”, é que o povo todo se espicha,
E que as esporas riscam num “cho-rô-chô-chô”…
– Os “loco” tudo enredado, “baxo” o candieiro…
Que a percantada neste breu já se assanhô!

E era um faz que vai – não vai – no mesmo arrasto,
Que só esta gente dita, ao costeio da dança…
Pode quem pode – e quem não pode se sacode…
…Que até um de colo sob a poeira se balança!

E já clareia o dia ao sapucai de um gallo…
Quem levou leva… E quem não levou, tá sem par!…
– Mas, Seu “Alflino”, não alça a forqueta ainda,
Que há de botá as “parede” tudo em seus “lugar”!!!

-X-X-X-X-X-

Este é o “Baile do Pé-de-Cabra”…

Com letra de Diego Müller e melodia de Filipe Corso!

Um tema baseado numa modalidade folk do nosso Estado e numa história real, acontecida entre a virada de ano de 1950 e 1951, citada como curiosidade por muitos, renascida e reinserida no público em forma de chotes num dos tantos festivais nativistas do Rio Grande.

O tema hoje segue (esse original, de triagem, gravado naquele apartamento do Centro de Canoas) disponíveis em todas as plataformas digitais (incluindo Youtube e Spotify), tendo no YouTube, inclusive, a versão do rodeio de Vacaria 2012 como do festival de Alegrete de 2017 (links acima).

Acessem… E apreciem, sem moderação!

Abraços a todos! “E dê-lhe Chotes!”

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