A INDUMENTÁRIA ESTÁ LINDA! PORÉM…

indumentária gaúcha
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Estamos bem vestidos assistindo de camarote um Movimento Gaúcho que agoniza!

Um recado publicado no meu Instagram me fez refletir muito… e também chorar por dentro!

Vou repostar e responder aqui, pois essa resposta serve para muita gente!

indumentária

Querida Clarissa!

O seu texto que foi esplendoroso, fiquei até com vergonha do meu!

Me falaste de tanto, em tão pouco!

Tão pequeno e tão cheio de informações, significados, emoções e verdades!

Eu não sei qual é o seu grupo. Se você ler ele novamente, vai ver que não me disse qual era. Mas também isso pouco importa diante da imensidão de sentidos que pesou cada palavra sua.

Pois, o seu texto não fala do seu grupo, ele grita sobre a realidade de muitos.

Compreendi o seu desabafo. Nenhum grupo teve péssimo gosto ou bom gosto. Também serei honesta em te dizer que dinheiro até depende, quase que na sua totalidade, de criatividade e leitura para uma boa pilcha, mas, seguramente, a criatividade não depende na sua totalidade do dinheiro. Mas calma! Se pensarmos na essência da nossa cultura, é certo que o seu o grupo apresentou a criatividade mais rica do evento… e sem dinheiro! Rica em valores e sentidos! Que é o que mais importa em nosso movimento. Fique tranquila!

Ao falar dos bordados feitos pelas próprias prendas, aproveitamento de paletós e rendas simples…. você está falando de um movimento puro e verdadeiro! Isso tudo retrata a vida do gaúcho de outrora!

Mas que infelizmente esse universo de concursos parece não comportar mais. (falo por mim)

Está se perdendo a essência. Mas o que é que que tem não é? O que é isso diante de se estar nos concursos… pois “Tá nos ‘concursos’, tá no mundo!” Sim, senhores gestores certamente todos temos orgulho de todos os festivais estarem no mundo! Graças aos novos meios de comunicação podemos vê-los. Mas, temos que dizer que os discursos rasos de alguns gestores também estão no mundo. Cuidado!

Nenhuma cultura sobrevive com lideranças com conhecimento raso, sem preocupações acerca da sua essência. Tampouco tratando sua comunidade como feudo – presos em regras, abordando seus integrantes apenas com razão… com pouca sensibilidade, essência e amor que é o que deveria abarcar essa cultura, limitando a maneira de vestir-se a base de Leis Suntuárias deste tempo! Leis que não fundamentam… só impõe!

VEJAM BEM: O PROBLEMA NÃO ESTÁ NAS REGRAS, ELAS SÃO NECESSÁRIAS, O PROBLEMA É A FALTA DE BASE HISTÓRICA PARA FUNDAMENTÁ-LAS.

Me diga como eu devo dançar, devo me vestir, devo me portar, devo falar, devo cantar, devo declamar…. MAS FALE PORQUE! Ou vamos ser somente papagaios.

Não me falem do “Grupo dos oito” como fundadores do movimento, e só! Me falem mais! Eles foram muito mais! Reeditem suas obras MTGs/CBTG. Tem muita pesquisa engavetada. Um painel, um CFOR, um curso, um encontro, um , um , um! Já não são suficientes. Um dia foi, mas hoje precisamos de mais ações, mais atenção! Pelo amor de Deus, olhem para o todo! Está tudo muito raso!

Essa nova geração não quer saber de ler Edinéia

Mentira também!

A juventude não tem o que ler! Os melhores livros estão esgotados!

Temos as melhores ferramentas para leitura, com o poder de circular conteúdos de forma instantânea e de graça – que são os Smartphones. Precisamos que esses conteúdos circulem! Tem tantas entrevistas gravadas com nossos fundadores que estão engavetadas! Precisamos delas! Editem!

Acho que, quem viveu a minha geração, ou anterior, vai entender o que quero dizer. Concursos existem há muito tempo, não é esse o problema, o caos que vivemos hoje tem haver com falta de conhecimento, falta de valores, falta de senso de pertencimento à uma cultura, principalmente por aqueles que nos conduzem.

A minha geração conviveu com os fundadores do movimento… e não falo isso para me engrandecer, falo isso apenas para dizer o quanto isso está nos fazendo falta.

Ouvíamos ricas histórias… eram pessoas simples. Tratavam os mais velhos e as crianças iguais! Nos explicavam de onde tinha vindo tudo! E o mais importante, como deveríamos seguir!

Íamos nos cursos e ganhávamos os livros de graça!

Que triste momento estamos atravessando!

Simplesmente por estar se transformando em uma outra coisa. As pessoas já não se reconhecem como tradicionalistas. E pior! O próprio Movimento Gaúcho não se reconhece mais. As instituições que foram criadas no sentido de organizar, estão perdidas. Estamos sendo liderados por pessoas sem senso de conhecimento histórico e cultural e isso está refletindo como certo. E NÃO ESTÁ CERTO.

Clarissa! Ao aproveitar paletós já usados, tu me apresentas um grau de afetividade e grandeza, que poucos teriam coragem de usar e ainda expor aqui. Os paletós que não serviram senhores, eu nem os conheço mas posso garantir, não eram de pessoas que engordaram ou emagreceram…. eram de pessoas que já dançaram e que hoje por algum motivo foram embora do CTG. Pessoas que se cansaram!

Que possamos nos enxergar dentro dessa cultura. E refletir…

Querida, não tenho dúvidas que dançaram envolvidos de muitas memórias afetivas. Mas memórias afetivas infelizmente estão se distanciando dos festivais… assim como a essência da cultura. Esse é o retrato de um Movimento Gaúcho que nos últimos anos parou no tempo em termos de cultura, história e essência.

A realidade do nosso movimento hoje é outra. E não falo só da instituição MTG de um Estado apenas, falo de muitas instituições e de alguns de nós também!

Muita luz na eleição à presidência do MTG –RS e da CBTG que estão se aproximando! Que chova consciência cultural nas mentes desses nossos futuros gestores!

A responsabilidade será grande! Ou continuamos descendo essa ladeira ou voltamos a subir!

Embora sejamos um país organizado, cada qual com seus MTGs, sabemos que essas duas entidades são balizas para as demais!

Deixo uma mensagem de uma menina de 10 anos para os futuros dirigentes:

Nunca esqueci de uma história que ouvi e que se tornou baliza pra mim!

Há um tempo, fui convidada para avaliar um concurso de prendas e peões no Oeste da Bahia, na cidade de Luiz Eduardo Magalhães (sempre conto essa história. Aí eu perguntei para uma candidata, que talvez nem tivesse 10 (dez) anos:

O que tudo isso aqui significa pra ti?

E com os olhos brilhando, ela me olhou alguns segundos e disse:

Isso aqui é a minha vida. Por exemplo: é o meu corpo. Os meus braços é a minha escola, as minhas pernas é a minha casa, os órgãos do meu corpo são a minha família, mas minha cabeça é o CTG.

Eu posso viver sem as minhas pernas, mesmo que eu não dance mais e não tenha mais casa. Eu vou viver.

Se eu perder os meus braços e não tiver mais escola. Eu vou viver.  Se eu perder alguns órgãos do meu corpo, que é a minha família, fará muita falta. Mas ainda assim, triste, eu vou viver.

Mas se eu perder a minha cabeça, eu não vivo mais!

Isso me tocou muito! E hoje, sem medo, digo que precisamos muito de gestores com cabeças! De tradicionalistas com cabeças. E até eu, confesso, que de vez em quando paro para lembrar que tenho que preservar minha cabeça. Pois eu sou esse movimento. Se eu me calo, eu também contribuo para a sua falência. Se eu estudo e guardo esse conhecimento “a sete chaves”, não compartilho… eu também contribuo para a falência.

Mas digo…

Já fui muito mais corajosa! Não tenho orgulho em escrever textos assim. Tenho na verdade medo de escrever. Pois na atual conjuntura, posso até receber um processo por publicar textos assim. Mas, queridos patrões, presidentes, coordenadores… não estamos contra vocês, só queremos que olhem para o todo. Fortaleçam o nosso movimento culturalmente. Não deixem que morra a autenticidade do nosso movimento!

E cuidem das suas e das nossas “cabeças”! …rs…

Com carinho

Edinéia

LEIA MAIS: INDUMENTÁRIA ENART 2019 – CRÍTICAS E ELOGIOS!

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Edineia Pereira é graduada em História pelo Centro Universitário de Brusque – UNIFEBE; Design de Moda pelo Centro Universitário Carlos Drummond de Andrade; Especialista em História Cultural pela Facel; Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS e Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, com pesquisas e obras sobre o Gaúcho. Há dez anos se dedica a docência nos cursos superiores de Design de Moda e Arquitetura e Urbanismo, ministrando disciplinas de História da Arte, da Moda, da Indumentária e da Arquitetura. Atua na área de gestão universitária com pesquisa, extensão e cultura, como membro do Conselho de Ética em Pesquisa CEP/CONEP e Conselheira Municipal de Cultura. Participa efetivamente do Movimento Tradicionalista Gaúcho há trinta anos. Foi Primeira Prenda do MTG – SC e Primeira Prenda da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha – CBTG.

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